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28 fevereiro 2026

Epiteto

"O que é a filosofia? Não seria uma preparação para nos depararmos com o que vem pela frente?" — Discursos

Epiteto (55-135) não nos deixou escritos filosóficos. Os pontos principais de sua doutrina foram preservados graças ao historiador Flávio Arriano, um de seus alunos. Arriano transcreveu em grego um número considerável de palestras de seu mestre. Essas palestras, conhecidas como os Discursos (ou Diatribes) foram originalmente reunidas em oito livros, dos quais apenas quatro subsistiram até nossos dias. O Manual de Epiteto (ou Enchiridion) é um conjunto de trechos selecionados dos Discursos que forma um resumo conciso da essência dos ensinamentos de Epicteto.

Epiteto nasceu escravo por volta de 55 d.C., em Hierópolis, Frigia, no extremo oriental do império Romano. Seu mestre foi Epafrodito, o secretário administrativo de Nero. Dado seu talento intelectual, Epafrodito mandou-o a Roma para estudar com o famoso professor estoico Gaio Musônio Rufo. Tornando-se o aluno mais aclamado de Musônio Rufo, acabou sendo libertado da escravidão. Epiteto ensinou em Roma até o ano 94 d.C., quando o imperador Domiciano, ameaçado pela crescente influência dos filósofos, expulsou-o de Roma. Passou o resto de sua vida no exílio em Nicópolis, na costa noroeste da Grécia. Ali fundou uma escola filosófica e passou seus dias fazendo palestras sobre como viver com mais dignidade e tranquilidade.

A base de seus ensinamentos encontra-se na clara distinção entre aquilo que se pode controlar e aquilo que não se pode. Dizia ele que podemos controlar nossas opiniões, aspirações e desejos e as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Fora do nosso controle estão as circunstâncias, as intempéries do tempo e o fato de ter nascido rico ou pobre. Tentar controlar aquilo que não pode ser controlado gera angústia e aflição. Por isso, pede que evitemos assumir as questões dos outros, porque estas tiram-nos ou desviam-nos do nosso caminho.

Anotemos alguns de seus pensamentos: "tudo tem um bom motivo para acontecer"; "aceite os acontecimentos à medida que ocorrem"; "não são os acontecimentos que nos ferem, mas a visão que temos deles"; "nunca dependa da admiração dos outros, mas crie o seu próprio mérito"; "evite adotar os pontos de vistas negativos de outras pessoas, porque eles podem ser contagiosos"; "a busca da sabedoria atrai críticas"; "ao tentarmos agradar outras pessoas, corremos o risco de nos desviarmos para o que está fora de nossa esfera de influência".

Para Epiteto, a meta principal da filosofia é ajudar as pessoas comuns a enfrentar positivamente os desafios cotidianos e as dificuldades da vida. É, comparativamente, um modelo taoista para o Ocidente, pois sua filosofia identifica-se com a arte de viver. Assim sendo, a filosofia deve responder ao apelo da alma. Pode-se dizer também que a verdadeira filosofia não envolve rituais exóticos, liturgias misteriosas ou crenças originais. É, sim, o amor à sabedoria, a arte de viver.

Embora devamos pensar por nós mesmos, uma reflexão sobre o modo de pensar dos outros, muito contribui para o nosso engrandecimento espiritual. Não importa de onde veio o ensinamento; basta apenas que o coloquemos em prática.

 

 

09 agosto 2022

Encheirídion

O Encheirídion é um termo grego que significa “punhal”, arma portátil ou livro portátil, manual. Consiste num conjunto de apotegmas  [ditado breve e sentencioso, que inclui um conteúdo moral que pretende dar uma lição], anotações de Arriano a partir das aulas de Epicteto que, à semelhança de Sócrates e de Jesus, nada deixou escrito.

Epicteto (55-135) é considerado, ao lado de Sêneca (4-65), Musônio Rufo (25-95) e Marco Aurélio (121-180), um dos grandes nomes do estoicismo imperial romano. Filho de uma serva, foi adquirido por Epafrodito, secretário imperial de Nero e Dominiciano. Em Roma, frequentou a escola de Musônio Rufo. Entre 89 e 94, já exercia o ofício de filósofo. Após ser expulso de Roma, retirou-se para Nicópolis, abriu uma escola de filosofia, e logo ficou famoso.

No Manual de Epicteto, de Flávio Arriano, com tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci, há 53 instruções e 72 notas. Nessas notas, observa-se o cuidado em detalhar os termos gregos e sua correta tradução para o português, pois dependendo do contexto os termos podem apresentar outro significado. Eis alguns exemplos: enkatreia — o império sobre si mesmo; karteria — perseverança; anexikakia — paciência; apaheia — ausência de sofrimento na alma.

O aspecto relevante deste manual encontra-se na análise daquilo que está ou não está sob o nosso controle. Entre as coisas que não estão sob o nosso controle podemos citar os acontecimentos que não dependem de nós [tempo, vizinho, barulho externo...] como também as opiniões alheias. Estão sob nosso controle o autoconhecimento, a crítica às apropria opiniões, a conquista de uma noção de piedade, fruição racional dos prazeres.

O Manual tem uma disposição prática: não se dedica aos altos voos da filosofia, mas na mudança comportamental dos seres humanos ante as várias situações que lhe são apresentadas, tanto as de caráter negativo quanto as de caráter positivo. Cabe a cada um de nós saber usufruir adequadamente cada uma dessas ocorrências, entendendo-se que, no final das contas, tudo depende de como vemos o mundo.   

Lembremo-nos sempre da passagem socrática — conhece-te a ti mesmo —, pois aí está tudo de que precisamos para uma vida bem vivida.

ARRIANO, Flávio. O Manual de Epicteto. Tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci. Campinas - SP: Cedet, 2020.