30 dezembro 2009

Problemas Filosóficos

Problema filosófico é a proposição de uma questão para a defesa de uma tese. Ubaldo Nicola, no livro Antologia Ilustrada da Filosofia, descortina-nos 200 problemas e as suas respectivas teses. Eis algumas questões levantadas.

Qual é a tarefa da filosofia? A verdade pode ser ensinada?

No que consiste o trabalho do filósofo? Qual é o processo de investigação mais adequado pra alcançar a verdade?

Que relação existe entre teologia e filosofia?

Como se deve pensar em Deus?

O que se pode afirmar da divindade?

Como conciliar a eternidade de Deus com a finitude temporal do mundo?

Se Deus é eterno não é lógico que o mundo também o seja? Senão, o que fazia Deus antes de criar o Mundo? É imaginável um Deus inativo?

O que se pode afirmar de Deus?

A existência de Deus pode ser provada por meio de um raciocínio lógico?

Pode-se distinguir o verdadeiro conhecimento da opinião? Em que condições se pode alcançar a verdade?

Existe uma verdade não opinável? No que consiste o conhecimento humano?

Qual é a estrutura do Universo?

Qual a origem do mundo? Existe um princípio primordial (arché) do qual tudo deriva?

Qual é a lei que governa o mundo? Em que consiste o pensamento?

O que é a alma? É imortal? O que confere vida ao animal, separando dele no momento da morte?

Para que vale a pena viver? A morte do corpo implica o fim definitivo do indivíduo? Existe vida depois da morte?

O que é o amor?

O amor é positivo mesmo quando se manifesta como paixão, enamoramento, desejo sexual?

Por que existe uma atração sexual entre pessoas do mesmo sexo?

Por que os homens desejam conhecer?

Em que consiste a inteligência?

Quais são os pressupostos de toda pesquisa científica?

Em que consiste a virtude? Existe uma regra geral do comportamento?

Como se deve viver?

Qual o melhor modo para ordenar a própria vida? Em que consiste a felicidade? É bom termos muitos desejos?

Qual deve ser o critério condutor do comportamento humano?

É possível viver sem sofrer? O que torna o homem sempre inquieto e insatisfeito?

Se Deus é bom, quem criou o mal?

Onde nasce a tendência dos homens a praticar o mal? Por que se praticam ações maldosas em propósito e sem utilidade?

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Maria Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

19 dezembro 2009

Contos e Enigmas Filosóficos

Em Filosofia, costumamos usar frases enigmáticas, contos, poesias e perguntas capciosas, para exercitar o pensamento. Quando o ser humano está absorto nessas questões, ele parece que se transporta para um outro mundo, o mundo da imaginação. Há personagens impossíveis em movimento, povoamento de outros planetas, as águas deslocam-se para as fontes, os animais opinam, os deuses se tornam seres carnais.

Jean-Claude Carrière, depois de dez anos de pesquisa, edita, em 2008, o livro Contos Filosóficos do Mundo Inteiro. Relata-nos que houve muita dificuldade em organizar os tópicos esparsos. Há, porém, uma falha: não colocou os títulos em ordem alfabética, o que facilitaria a sua busca. De qualquer modo, é um livro que deve ser lido, pois consegue nos elevar acima de nós mesmos e das nossas pretensas dificuldades.

Escolhamos um título: o cômodo escuro. Como está disposto este assunto? Três atitudes humanas podem ser definidas a partir de um cômodo escuro. Num cômodo escuro, um homem procura por alguma coisa. É um cientista. Num quarto escuro, um homem procura por uma coisa que lá não se encontra. É um filósofo. No mesmo quarto escuro, um religioso procura por alguma coisa que lá não se encontra e exclama: — Eu encontrei!

Os casos relatados são muitos; estão distribuídos nas suas 300 páginas. A tônica desses contos, dessas perguntas, dessas questões, desses enigmas é despertar o pensamento, geralmente por meio da controvérsia. O ideal não é querer memorizar todos esses textos, mas escolher aqueles que se coadunam com o nosso modo de pensar, com os nossos gostos e os nossos sentimentos. 

Continuando, podemos anotar a seguinte poesia:

Do repouso dos humanos implacável inimigo

Tornei mil amantes invejosos da minha sorte

Eu me alimento de sangue e encontro a vida

Nos braços daquele que procura minha morte. (A pulga)

Há inúmeras formas de enfrentarmos o tédio e não deixarmos que o desespero tome conta de nós. Quando o trabalho nos causar estresse, deixemo-lo momentaneamente e usufruamos dessas ilações do pensamento. Somos levados para um mundo diferente, um mundo onde a imaginação pode tudo como sói acontecer em filmes e novelas.

Fonte: CARRIÈRE, Jean-Claude. Contos Filosóficos do Mundo Inteiro. Tradução de Cordelia Magalhães. São Paulo: Ediouro, 2008.

 

09 dezembro 2009

Metafísica e Número

“Desde a mais alta antiguidade o mundo foi considerado uma construção matemática, cuja harmonia não podia ser, naturalmente, senão de essência divina”.

Metafísica é a ciência primeira, o esforço que o ser humano faz para chegar à essência do Universo, de Deus e de tudo o que existe no mundo. Poderia ser um sinônimo de Filosofia, caso não houvesse a sua ligação indevida com o “sobrenatural”. Neste artigo vamos analisar a sua relação com os números.

O número exerce um poder sem limite. É ele que nos posiciona na vida. Estamos sempre no meio deles, fazendo contas, pagando dívidas, comprando mantimento. Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, assim se expressa: “As pessoas crescidas adoram os números. Quando você lhes fala de um novo amigo, elas nunca perguntam o essencial: ‘Qual é o som de sua voz? Quais são os seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas?’ Elas sempre perguntam: ‘Qual é a sua idade? Quantos irmãos têm? Quanto ela pesa? Quanto ganha seu pai?’”

Algumas citações. De acordo com a Bíblia, Deus ordenou todas as coisas “segundo o número, o peso e a medida”. Leibniz: “Enquanto Deus calcula e exerce seu pensamento, o mundo se faz...” e, em sua convicção, ele acrescenta: “O ateu pode ser geômetra, mas não sabe o que é geometria”. Descartes disse: “Eu não incluo, em minha física, outros princípios que não aqueles que aceito em matemática”. Hegel: “Nada há de real além do racional e nada há de racional além do real”.

Para Pitágoras, todas as coisas eram números e qualquer número era uma divindade. Deus era representado pelo número 1, a Matéria pelo número 2 e o Universo pelo número 12, resultante da multiplicação de 3 por 4. Havia, assim, uma unidade divina, absoluta e primordial, na qual ele vê a mônada das mônadas, ou seja, a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a organização harmoniosa do universo, em que os números têm um poder ilimitado.

Os números são símbolos. O que está por detrás deles é a busca da origem das coisas. Observe a Cabala — decifração dos textos sagrados pelo simbolismo dos números e das letras. Ela é, antes de tudo, a explicação de uma cosmogonia (formação do Universo), baseada nos números, considerados potências conscientes e ativas.

Compilaçãohttps://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/metaf%C3%ADsica

18 novembro 2009

Autodefesa Intelectual

“O verdadeiro pensador crítico admite o que pouca gente está disposta a reconhecer: que não deveríamos confiar comumente em nossas percepções e memória”. (James E. Alcock)

Diariamente, lemos e ouvimos os noticiários dos jornais. As notícias pululam velozmente. Conforme for a aceitação do público, elas continuam na mídia; depois de algum tempo, caem no esquecimento. Por detrás de uma informação, há o interesse político e o da mídia de um modo geral, de sorte que a verdade nem sempre está à vista. Normand Baillargeon, em seu livro Pensamento Crítico: Um Curso Completo de Autodefesa Intelectual, discorre sobre este assunto.

Joseph Goebbels, ministro nazista de Informação e Propaganda do governo do III Reich, disse: “À custa de repetições e da ajuda de um bom conhecimento do psiquismo das pessoas envolvidas, deveria ser possível provar que um quadrado é de fato um círculo. Porque afinal o que são “círculo” e “quadrado”? Simples palavras e as palavras podem ser usadas até tornarem irreconhecíveis as ideias que veiculam”.

Para fazer uma crítica, não basta pegar a definição dada pelo dicionário, pois o dicionário fornece convenções de uma sociedade relativas ao uso das palavras, convenções explicitadas com o uso de sinônimos. A etimologia da palavra também não ajuda muito, pois o seu significado muda com o tempo. Importa mais procurar uma definição conceitual.

Os números e os gráficos também podem deformar a verdade; basta apresentá-los segundo um dado interesse. Observe a frase de Benjamin Dereca: “Existem três tipos de pessoas: as que sabem contar e as que não sabem”. Qual o enigma dessa frase? Benjamin Dereca está querendo nos mostrar que alguém não sabe contar, pois começa afirmando que há três tipos de pessoas, mas só cita dois.

Argumentar não é discutir. Discussão envolve opiniões. Argumentar é buscar a lógica da verdade.

Fonte de Consulta

BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico: Um Curso Completo de Autodefesa Intelectual. Tradução de Patrícia Sá. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

 

11 novembro 2009

Ensaios (Montaigne)

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) nasceu e morreu na França. Seu pai era um rico comerciante de vinho, o qual teve oportunidade de proporcionar-lhe educação esmerada, sendo que, aos 13 anos de idade, sabia mais latim do que francês. Montaigne ficou famoso pelos seus Ensaios, dividido em três livros, escritos de 1580 a 1588. Muitos usufruíram de suas lições. Na lápide de Auguste Collignon, morto em 1830, aos setenta e oito anos, havia a seguinte inscrição: “vivera para fazer o bem, tendo haurido suas virtudes nos Ensaios de Montaigne”.

Toda a filosofia de Montaigne está condensada no lema socrático: Que sais-je? ("O que é que eu sei?"), que ele mesmo mandou cunhar numa moeda. Este lema explica-se pelo ceticismo. Trata a filosofia como um saber presunçoso. "A presunção é nossa doença natural e original", e a filosofia em seus altos voos metafísicos, é apenas um produto da vaidade humana. A razão, pensa Montaigne, não pode alcançar certeza alguma, mas o homem tem de se acostumar a viver na incerteza, e suportá-la estoicamente.

O objetivo dos Ensaios era deixar com amigos e conhecidos um retrato mental dele próprio, inclusive com os seus defeitos, sem método de classificação dos assuntos. Ele dizia: “Não pinto o ser, pinto a passagem, não a passagem de uma idade a outra, de sete em sete anos, como diz o povo, mas dia a dia, minuto a minuto”. Partia de si mesmo, tentando uma generalização do ser humano. Aproveitava o ensejo para combater o egoísmo e o preconceito que grassava na sociedade.

As suas ideias eram fundamentadas nos grandes escritores do passado, principalmente Plutarco. Os pensadores estoicos influenciaram-no sobremaneira. As suas inspirações vinham deles. A sua tese educativa visava a formação do juízo (particular e moral) mais do que a do juízo científico. Para Montaigne, a filosofia é a arte de conhecer para aprender a “viver bem” e a “morrer bem”.

Alguns pensamentos extraídos dos Ensaios: “Duvidar, negar mesmo, não é deixar de aprender”; “Por diversos meios chega-se ao mesmo fim”; “As ações julgam-se pelas intenções”; “Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que nos sejam úteis”; “Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados diversos”; “O homem não cede a outrem a glória que conquistou”.

Segundo a crítica, Montaigne é um naturalista sem pretensão, que se compraz nas observações de cada dia. Longe de ser um estado doloroso da alma, a dúvida é, para ele, o seu estado ordinário, uma espécie de crepúsculo psicológico cheio de uma forma indecisa, e que gosta de prolongar porque se sente à vontade, independente e desligado. Quando suspendia o juízo não era para desanimar as boas vontades: reservava o seu juízo para momento mais propício, pois nada lhe custava ficar na incerteza.

Cada pessoa é única. Montaigne, por exemplo, foi o primeiro filósofo a inaugurar os ensaios, sem classificação alguma. A sua única preocupação era a de registrar a tensão formada em seu ser em seu pensamento.

 

12 outubro 2009

A Metáfora do Trilho

Metáfora é a mudança do sentido comum de uma palavra por outro sentido possível que, a partir de uma comparação subentendida, tal palavra possa sugerir. A palavra trilho pode sugerir-nos diversas ideias: de finito e infinito, de destino do ser humano, do bem e do mal, da perfeição, de um ideal a ser atingido, de um roteiro, dos desvios de rumo e da ansiedade.

Em uma viagem trem, podemos observar os trilhos paralelos que servem para a nossa volta. Ao redor deles, há pedras, dormentes, árvores e vegetação rasteira. Sentados próximo à janela, estas imagens deslizam suavemente aos nossos olhos. Se não tivermos nenhuma preocupação, o nosso pensamento pode acompanhar essas imagens e delas extrair material para futuras reflexões. Façamos este pequeno exercício.

Observando os trilhos, percebemos que há, entre eles, uma distância finita, que é a medida entre um trilho e outro. Esta medida é fixa e constante, pois serve de apoio para as rodas do trem. Ao mesmo tempo, os dois trilhos paralelos parecem que vão até o infinito, pois eles vão deslizando como se nunca chegasse ao fim. Embora pareça que não tem fim, sabemos que a última estação é o término, o fim, mas a impressão de infinito move a nossa mente, principalmente no sentido de expandir o nosso pensamento, as nossas ideias, os nossos ideais. Temos a impressão que caminhamos para o desconhecido, para o futuro, para aquilo que Deus está nos reservando.

Tomemos, por exemplo, a perfeição a ser atingida. Os dois trilhos podem significar os limites para as nossas ações no bem. Caso os ultrapassemos, ou seja, saiamos dos trilhos, sofreremos as consequências, pois praticamos o mal, e o mal não faz parte do nosso caminho de evolução espiritual. Ir além dos limites, trar-nos-á dor. Sofrendo-a com resignação, podemos voltar novamente ao caminho do bem, ou seja, entrar novamente nos trilhos da perfeição. Caso nos revoltemos, podemos continuar mais tempo fora dos trilhos da perfeição.

Podemos pensar: se eu conseguisse viajar sempre dentro desses trilhos, economizaria tempo e mais rapidamente chegaria ao porto do meu destino. A vida, contudo, não transcorre nessa harmonia linear. Ela tem altos e baixos, desvios, mudança de rota. Às vezes é preciso fazer uma pausa, parar, refletir, para melhor caminhar, tal qual nos ensinava Sócrates com a sua maiêutica. Lembremo-nos também de Paulo que, depois de aderir ao cristianismo, precisou ficar três anos no deserto, trabalhando no tear, para poder adquirir maturidade espiritual e desempenhar nobremente a sua nobre missão de levar a boa nova do Cristo aos pagãos.

27 setembro 2009

Maquiavel

"Tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não sabe se defender da força bruta dos lobos. Portanto é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos." (Maquiavel)

Nicolau Maquiavel, Nicollò Machiavelli, (1469-1527) foi político, historiador e escritor italiano. Nasceu e morreu em Florença. Foi chanceler e secretário das Relações Exteriores da República de Florença, cargos modestos, apesar dos títulos, limitando-se as funções à redação de documentos oficiais. Maquiavel é mundialmente conhecido pelo livro "O Príncipe". Deixou, porém, outros escritos, tais como, Comentários sobre a Primeira Década de Tito LívioA MandrágoraHistória de Florença, além de inúmeros tratados histórico-político, poemas e sua correspondência particular, organizada pelos descendentes.

Antes de Maquiavel, o governante de um país era comparado ao piloto de um navio, que tinha por objetivo conduzi-lo ao porto, sem que afundasse. Analogamente, o governante de uma República deveria conduzir o povo, sem dispersá-lo, para a prática da virtude. Maquiavel, em O Príncipe, aceita conduzir o povo sem avarias, porém faz silêncio sobre a condução do povo à virtude. Tem dúvidas quanto ao realizar a justiça. O Príncipe retrata o descontentamento do seu autor por ter sido banido da vida pública. O que está por detrás do livro é a aparência do bom e do virtuoso que o condutor do povo deve ter. Não importa se o ser humano é virtuoso, mais vale parecer virtuoso.

Maquiavel não é considerado um educador em termos do adestramento para a aquisição de conhecimentos e habilidades específicas, mas fundamentalmente, um educador da cidadania, que é a formação do ser humano, para que ele faça parte ativa de uma cidade. Em linhas gerais, Maquiavel trata de investigar se é possível encontrar uma solução pacífica em meio aos desejos ambiciosos e egoístas que predispõem os indivíduos à desagregação e ao conflito.

Maquiavel distingue uma moral do indivíduo, que visa à obtenção de virtudes, e outra para o estado, que visa a obter o bem comum, nem que para isso seja necessário o emprego do constrangimento, da coação e da persuasão. Maquiavel afirma que todo o julgamento moral deve ser secundário na conquista, consolidação e manutenção do poder. Ele diz: "Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade".

Maquiavel inaugurou a astúcia inescrupulosa como método de governo. É a partir dele que o termo maquiavélico, como atitude amoral, passou a frequentar, injustamente, o vocabulário político.

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Nicolau Maquiavel é muito mais falado do que lido, mais confundido do que compreendido, pintado como autor que afirmou que os fins justificam os meios — frase que não se encontra em nenhum de seus textos. 

A pecha do "fins justificam os meios" é proveniente de sua recusa por tratar a política como questões éticas. A sua obra é preconizadora do maquiavelismo, sistema político caracterizado pelo princípio amoralista de que os fins justificam os meios. (O Melhor de Maquiavel, por Cláudio Blanc, pela Idea Editora. Bauru, 2012.)

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Maquiavel rompe com o idealismo político e traça diversos conselhos (duros) a um príncipe governante.

Segundo todas as aparências, o livro de Maquiavel sustentava que o sucesso político sobrepuja a moral, que a força faz o direito, e que os fins justificam os meios.

"O Príncipe, com sua separação da ética em relação à política, fez de Maquiavel o pensador político mais difamado desde o Trasímaco da República de Platão. No entanto, é discutível se o próprio Maquiavel aprovava e defendia as doutrinas que ele descreveu, ou se ele meramente relatou que elas refletiam a prática real".

"O livro de Maquiavel foi apresentado criticamente ao longo dos séculos seguintes no conflito contínuo entre o utopismo político e a realpolitik (política realista). E até hoje a questão de se um árbitro político deveria deixar sua moralidade pessoal em casa ao ir para o escritório continua a ser um assunto de vivo debate". (RESCHER, Nicholas. Uma Viagem pela Filosofia: em 101 Casos Anedóticos. Tradução André Oídes. São Paulo: Ideias e Letras, 2018.)

 




02 setembro 2009

Símbolo e Simbologia

“Um sinal é uma parte do mundo físico do ser (being), um símbolo é uma parte do mundo humano da significação (meaning)”. E. Cassirer, An Essay mon Man, p. 32.

Há duas maneiras de representar o mundo. Uma direta, em que objeto se apresenta à nossa frente; outra indireta, quando por qualquer razão o objeto não pode se apresentar em “carne e osso”. A forma indireta representa o símbolo, que pode ser usado indiferentemente como “imagem”, “figura”, “ícone”, “ídolo”, “signo”, “emblema”, “parábola”, “mito” etc.

Símbolo é um sinal particular, que pode ser expresso com figuras, imagens, palavras e gestos. Do gr. symbolon, neutro, vem de symbolé‚ que significa aproximação, ajustamento, encaixamento, cuja origem etimológica é indicada pelo prefixo syn, com e bolé, donde vem o nosso termo bola, roda, círculo. Referia-se, deste modo, à moeda usada como sinal. O símbolo é, pois, tudo quanto está em lugar de outro.

Filosoficamente, o símbolo pode ser assim conceituado. Ao o passo que um sinal de um objeto de percepção é uma parte do objeto que evoca o todo ou a porção do todo que mais interessa ao sujeito, um símbolo é algo que evoca, não o objeto de percepção, mas a concepção que temos do objeto. Este poder de compreender e interpretar símbolos diz respeito à mentalidade humana. Os animais, por exemplo, não têm essa capacidade. Diz-se que o cão pode se impressionar com a vista de um gato, mas não sente reação alguma ao ver um desenho que represente o gato.

Todo símbolo é sinal, mas nem todo sinal é símbolo. O símbolo é a espécie e o sinal o gênero. Para que o sinal seja símbolo ele tem que estar no lugar de outro. O sinal pode ser apenas convencional, arbitrário. O símbolo, não. Este deve repetir, analogicamente, algo do simbolizado. Além disso, o símbolo é meio de acesso às realidades pessoais, misteriosas e inacessíveis a uma observação direta e imediata. Por exemplo: o signo bandeira simboliza os vários graus de heroísmo.

O ser humano, praticamente, não dispõe de um símbolo mais privilegiado para a comunicação do que a palavra. Imagine um indivíduo feito uma estátua. Nessa circunstância, é difícil sondar-lhe o pensamento e o sentimento. Porém, ao se expressar, torna-se logo conhecido. Além da transmissão de conteúdo, a palavra é muito mais um instrumento de comunicação espiritual: faculta ao ouvinte a elaboração de novas ideias sobre o discurso proferido.

A parábola, por definição, é uma narrativa alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior. Jesus falava por parábolas no sentido de despertar a curiosidade dos ouvintes para, depois, dar as explicações necessárias. Na realidade, as parábolas são verdadeiros conjuntos simbólicos do Reino de Deus e os simples exemplos morais.

A importância do símbolo é tamanha que a filosofia tem uma matéria chamada simbólica, cujo objetivo é estudar a gênese, o desenvolvimento, a vida, a morte e a ressurreição dos símbolos.

 

25 agosto 2009

Memória e Repetição

A repetição tem uma função primordial: ajuda a memorizar aquilo que temos necessidade de aprender ou de saber. Em filosofia, costuma-se repetir o modelo de um grande autor: Kant, Hegel, Descartes. Diz-se que a filosofia é histórica, porque cada filósofo parte de onde terminou o seu antecessor. Aproveita-se do que outro fez, segue alguns de seus passos e critica outros, podendo até formular novos sistemas, novas teorias.

Como repetir sem mecanizar? Esta é a grande dificuldade do aprendizado. O ser humano não tem o hábito de pensar por si mesmo, já afirmava Kant. É mais fácil repetir o que o outro disse. Em realidade, o aprendizado não é uma repetição automática, mas uma re-conceituação feita com as próprias palavras. Um pensamento alheio tem que ser captado e trabalhado segundo o entendimento e interesse do aprendiz. De nada adianta ficarmos repetindo frases alheias; elas têm que fazer parte do nosso ser.

“Pensar é pensar junto é co-pensar”. Não existe o pensador genuíno, original. Precisamos de informações alheias. Estas nos veem por intermédio daquilo que já foi pensado pelos outros; é uma espécie de estímulo para o nosso pensar. Surge, assim, a repetição como aprendizado. Esta, porém, não pode ser feita como uma máquina ou como o papagaio que simplesmente repete o que ouviu. Ao ler ou ouvir, o aprendiz deve fazer o esforço de compreensão, de expressar aquele pensamento com suas próprias palavras.

 

Sapere Aude

Em 5 de dezembro de 1783, é publicado o artigo de Kant intitulado: Resposta à Pergunta: Que é Esclarecimento? “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento”.

Kant (1724-1804) vivenciou a época do iluminismo, o século da luzes, em que tudo era posto sob a crítica da razão, inclusive a fé. Enquanto a Idade Média era considerada a época das sombras, pois impedia o livre-pensar, o iluminismo é a libertação do ser humano. Quer-se questionar tudo, desde o poderio econômico e político até as injunções da religião na vida de cada ser humano. Ao lado de outros pensadores, tais como Descartes, Kant deu a sua contribuição para a expansão das luzes do pensamento. Por isso, o sapere aude, ou seja, ouse pensar, pense por você mesmo.

Em suas prédicas, Kant separa o uso privado e o uso público da razão. O uso privado diz respeito à obediência que decorre do exercício de determinadas funções. Cita o exemplo do soldado, que mesmo discordando (uso público da razão) do seu chefe, deve obedecê-lo (uso privado da razão). Outro caso é o pagamento de impostos. Podemos discordar (uso público da razão), mas devemos pagá-los (uso privado da razão)

O princípio da razão é pensar por si mesmo. Não é, contudo, fazer revolução ou o que se bem entender. Pensar por si é usar incondicionalmente a razão. Quando agimos dessa forma, acabamos discordando de muitos procedimentos em sociedade, pois a maioria deles é fruto do condicionamento em que fomos inseridos, quer pela mídia quer pelos usos e costumes, absorvidos ao longo do tempo.

sapere aude kantiano não é nenhuma novidade. Sócrates, na antiguidade, já nos instruía sobre o “conhece-te a ti mesmo”. De qualquer forma, a sua lembrança faz-nos refletir sobre a essência do conhecimento, que deve ser construído por cada ser humano, segundo os seus próprios interesses e necessidades. Daí, andar nos trilhos traçados por outrem é trabalho fácil, mas trilhar o próprio caminho é tarefa mais árdua, pois implica contrariar opiniões e preconceitos.

Colocar no papel o que se viu, leu ou escutou é muito útil ao nosso crescimento moral e intelectual. É não dar trégua à preguiça mental, pois já foi comprovado que quanto menos usarmos o cérebro, mais ele se atrofia. Assemelha-se à passagem evangélica em que Jesus diz: “Ao que muito foi dado, muito será exigido, mas mais lhe será acrescentado”. Quer dizer, atividade chama atividade, pensamento atrai pensamento. O desânimo e a indolência entram na alma, porque não foram combatidos desde o início.

As circunstâncias podem exigir o uso da razão privada. Não tenhamos receio de colocá-la em prática. Contudo, em cada uma dessas ações, reflitamos também sobre o uso da razão pública, que é a prática da razão incondicional.

 

05 agosto 2009

Educar Através de Perguntas

Sócrates, na antiguidade, exercitava-se na maiêutica, método que consiste em gerar ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de um assunto. É possível até que tenha feito falsas perguntas, mas esse método permanece vivo até hoje, principalmente nos estudos de dinâmica de grupo. A paidéia grega do conhece-te a ti mesmo foi fundamental na apreensão da cultura grega e, ainda hoje, é aplicado para a formação do homem moderno.

O educador deveria se pautar na pergunta e no ensinar a perguntar. Geralmente, o aluno que sabe a resposta, tirou-a de algum livro ou de algum estudo anterior. O perguntar, pelo contrário, depende de um interesse pessoal, de uma aptidão intrínseca da alma. É por esta razão que os mais velhos ficam desorientados ante os questionamentos dos jovens, pois estes fazem as suas indagações espontâneas, sem se preocuparem com a tradição ou com um passado preconceituoso.

A ciência é o resultado das hipóteses, enunciados e corolários levantados ao longo do tempo. Por trás, porém, de cada corolário, de cada hipótese e de cada enunciado há uma pergunta. Por isso, diz-se que “o máximo da pergunta científica são os postulados, axiomas e teorias que são formulados por um pensamento prévio interrogador”. A filosofia também é construída por meio de perguntas. E, quanto mais se pergunta, mais se tem o que perguntar, pois o “sei que nada sei” socrático pode se dirigir ao infinito.

A pergunta formulada nas ciências difere da pergunta feita na filosofia. Nas ciências, a pergunta busca uma resposta positiva, geralmente expressa em números. Nesse caso, faz-se um corte na realidade e estuda-se um detalhe, aquilo que interessa ao pesquisador científico. Na filosofia, a pergunta busca a totalidade da realidade, a sua radicalidade. A radicalidade – que vem de radical, e, este, de raiz – é a reflexão profunda da experiência humana. Para aprofundar, precisamos cavar muita terra, pois há raízes que a penetram a distâncias intermináveis. .

A filosofia tem pressupostos, mas não preconceitos. Esta afirmação é sumamente importante, pois deixa o inquiridor completamente à vontade para qualquer tipo de questionamento. Ele pode obter informações de filósofos consagrados, mas não precisa fiar em seus sistemas. A sua meta é a verdade dos fatos, que é a perfeita correspondência entre o pensamento e a realidade, entre o ser e o objeto. Nesse sentido, a filosofia não é acúmulo de conhecimentos, mas um assunto pessoal, um modo de ser, uma forma de vida, como dizia Sócrates.

Na educação, a pergunta é imprescindível. Assim, quer estejamos estudando textos científicos, filosóficos ou religiosos, não nos esqueçamos de fazer as perguntas relevantes para a devida compreensão do tema proposto.

 

04 agosto 2009

Paidéia Grega e Formação Cultural

Paidéia – do grego paidos (criança) significava inicialmente “criação de meninos”. É por isso que Werner Jaeger, grande estudioso da cultura grega, diz-nos: "Não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da educação grega, porque esta palavra só aparece no século V". Dessa forma, a palavra paidéia tomou outro rumo, ou seja, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão.

paidéia grega ou a humanitas latina dizem respeito à formação da pessoa humana individual, a qual se fundamentava nas “boas artes”, ou seja, na poesia, na eloquência, na filosofia etc. A República de Platão é a expressão máxima da estreita ligação que os gregos estabeleciam entre a formação dos indivíduos e a vida da comunidade. A afirmação de Aristóteles de que o homem é um animal político, devendo viver em sociedade, tem o mesmo significado.

A filosofia socrática do gnôthi se autón, “conhece-te a ti mesmo”, vai ser o elo propulsor da paidéia. Para os gregos, que davam muita importância à educação, o que interessava era a introspecção e a contemplação, características essenciais do filosofar. O filosofar levava-nos à aristocracia, governo dos melhores, e no caso, os melhores eram os filósofos. Aristóteles, com a sua dinâmica social, em que as pessoas deviam viver na pólis, complementa esse pensamento. Daí, o termo aristocracia social.

A Idade Média, dominada pelas verdades reveladas pela religião, modificou a função original da filosofia. Na Antiguidade, a filosofia era a busca do conhecimento, tanto externo quanto interno. Na Idade Média, a filosofia servia mais para os religiosos se defenderem da heresia e das crenças alheias. O caráter aristocrático e contemplativo, típico do ideal clássico, ainda permaneceu na Idade Média, mas com objetivos completamente diferentes e até antagônicos.

A filosofia moderna fundamenta-se no bildung (formação). Utiliza os mesmos quadros conceituais da paideia antiga, ou seja, conhecimento de si mesmo, introspecção e contemplação, mas caminha em outra direção, toma outro rumo. Não é o encontro com o eu, mas um afastamento dele, pois procura desconstruir a tradição, o clássico. Observe a filosofia de Descartes: começa como se fosse uma tabula rasa, no sentido de passar uma borracha no passado, na tradição.

Observemos os fatos e extraímos deles a nossa própria interpretação. Como já se disse, “o que é clássico tem o condão de nunca se tornar obsoleto”. O mundo está cheio de novidades. Selecionemos aquelas que nos são úteis e descartamos as demais.

 

10 junho 2009

Objetivismo e Modo de Vida Correto

objetivismo e o modo de vida correto são um dos ramos da filosofia moderna. O objetivismo é proveniente da Ayn Rand; o modo de vida correto, do Budismo.

Ayn Rand (1905-1982), nascida Alissa Zinovievna Rosenbaum, foi uma controversa filósofa estado-unidense de origem judaico-russa, mais conhecida por sua filosofia do Objetivismo, e seus romances The Fountainhead ("A Nascente", sendo que o filme é conhecido no Brasil por "Vontade Indômita") e Atlas Shrugged ("Quem é John Galt?" no Brasil).

O objetivismo pode ser resumido em quatro princípios:

1) A realidade existe, independentemente da observação do homem, de seus sentimentos, desejos, esperanças ou medos

2) A razão é o único meio do homem para perceber a realidade, sua única fonte de conhecimento, seu único guia de ação e seu meio básico de sobrevivência

3) O homem, cada homem, é um fim em si mesmo e não um meio para o fim de outros homens. Deve existir em função de seus próprios propósitos, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele

4) A liberdade, num sistema político onde os homens se tratam como negociantes livres, em trocas voluntárias, com mútuo benefício e nunca como vítimas e executores, senhores e escravos.

Buda preconizava o discurso correto, a ação correta e o modo de vida correto. Em se tratando do modo de vida correto, há cinco aspectos relevantes:

1) não prejudicar os outros;

2) encontrar a "felicidade apropriada";

3) crescer espiritualmente;

4) simplifique;

5) ajudar os outros;

Embora seja difícil aplacar esses princípios, deve-se tê-los como modelos, tais como são os ensinamentos de Jesus. O não prejudicar os outros é não prejudicar o próximo, o planeta. O encontrar a "felicidade apropriada" é viver com os próprios recursos, sem excesso. Crescer espiritualmente é ver o lado espiritual dos trabalhos repetitivos. Simplifique, ou seja, nada de supérfluo, nada de extravagâncias. Ajudar os outros é ajudar a si mesmo.

 


09 junho 2009

Aparência e Realidade

Na história da filosofia, a aparência teve dois significados diametralmente opostos: 1) ocultação da realidade; 2) manifestação ou revelação da realidade. No primeiro caso, a aparência vela ou esconde a realidade das coisas. É preciso transpô-la; no segundo caso, a aparência é o que manifesta ou revela a realidade, de tal modo que este encontra na aparência a sua verdade, a sua revelação. No primeiro caso, conhecer significa libertar-se das aparências (Sócrates e Platão); no segundo, conhecer é confiar na aparência, deixá-la aparecer.

Em metafísica, depois de Kant, o termo aparência caiu em desuso. Em seu lugar deve-se usar fenômeno. O termo aparência hoje em dia conserva um sentido psicológico, ou seja, toda a representação, ou melhor, toda a presentação que se considere diferente do objeto que lhe corresponde. O termo antitético é realidade.

O que se entende por realidade? O adjetivo real concerne às coisas e qualifica o que é dado, o que existe efetivamente. Indica, assim, o modo de ser das coisas existentes fora da mente humana ou independentemente dela. Consequentemente opõe-se por um lado ao que é aparente e ilusório, e, por outro lado, ao que é abstrato.

Aquilo que vemos é realmente o que vemos? Esta questão remete-nos ao próprio pensar do ser humano. Podemos simplesmente absorver uma informação (de modo passivo) ou, ao contrário, indagar se ela tem fundamento, se condiz com a verdade dos fatos. O nosso procedimento, como seres racionais, é o de questionar se a informação recebida tem um fundo de verdade. João, em seu Evangelho, já nos alertava para não acreditarmos em todos os espíritos. Antes disso, deveríamos verificar se eles são de Deus, ou se são mistificadores. Em outras palavras, desconfiemos das aparências.

A dúvida metódica de Descartes auxilia-nos a penetrar o nosso olhar além das aparências das coisas. Descartes analisa o conhecimento vigente e conclui que nada se lhe oferece, de modo indubitável, sobre o que possa fundamentar o seu trabalho. Tem que buscar alguma coisa fora da tradição, uma ideia, uma única que seja, mas que resista a todas as dúvidas. Ele coloca uma dúvida, não para simplesmente duvidar, mas para extrair da sua dúvida a verdade. Aristóteles, por outro lado, dizia: "... o que é diferente de alguma coisa é sempre diferente por qualquer coisa, e tanto assim que deve necessariamente haver algo de idêntico, pelo que são diferentes". (Metafísica, 1054b, 25 segs.) Parte-se, muitas vezes, do conhecido para o desconhecido.

Bibliografia Consultada

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.




05 junho 2009

O Rito

As ciências sociais, para bem compreender os fenômenos que estudam, devem sair ou ultrapassar o nível de experiência ingênua: o irracional ou o que se apresenta como irracional deve ser transformado em racional.

Para os etnógrafos – que observam e registram as características morfológicas de um grupo étnico ou de uma sociedade viva –, uma sociedade desprovida de qualquer ritual seria uma anomalia. Acham que há sempre uma explicação para aquele gesto ou aquele modo de ser, embora o homem moderno nada veja.

Então, se o homem moderno, seja qual for a sua posição filosófica, julga extravagantes os ritos de seus semelhantes menos evoluídos, os etnógrafos e os antropólogos tentam perceber o que há de lógico no que parece ilógico. Nesse sentido, o rito é um terreno muito mais privilegiado do que o próprio mito, porque os gestos, o vestuário e outros tipos de manifestações podem ser observados in loco, enquanto o mito fica apenas no campo da teoria.

Mas o que é o rito? O rito é um conjunto de atividades organizadas e institucionalizadas, no qual as pessoas se expressam por meio de gestos, símbolos, linguagem e comportamento, transmitindo um sentido coerente ao ritual. É um ato que pode ser individual ou coletivo, mas que sempre, mesmo quando é bastante flexível para comportar uma margem de improvisação, permanece fiel a certas regras que constituem precisamente o que há nele de ritual.

A palavra latina ritus designava, aliás, não só as cerimônias ligadas às crenças relativas ao sobrenatural, como os simples hábitos sociais, os usos e os costumes (ritus moresque), isto é, à maneira de agir reproduzida como certa invariabilidade. O fim dos verdadeiros ritos é tanto o de afastar as impurezas como o de manejar a força mágica ou ainda de pôr o homem em contato com um princípio que o transcende.

Há grande diferença entre rito e ritual. O rito é associado ao mito, enquanto ritual diz respeito a quase tudo que fazemos. Nesse caso, o médico procede a um ritual para fazer a sua operação. O uso deste ou daquele vestuário, deste ou daquele gesto não pode ser considerado ritual. Pode ser apenas um costume, uma maneira de ser e de agir. Para enquadrar-se como rito, deve pertencer a um contexto específico, principalmente o religioso.

O mito, o rito e os rituais parecem-nos irracionais. Não importa. Procuremos estudá-los, meditando em sua pureza original. Quem sabe não podemos descobrir, por nós mesmos, a simbologia que eles representam?

22 maio 2009

Justiça e Igualdade

A noção de justiça designa por um lado o princípio moral que exige o respeito da norma do direito e, por outro, a virtude, que consiste em respeitar os direitos dos outros. É a virtude moral que faz que se dê a cada um o que lhe pertence e se respeitem os direitos alheios. É uma das quatro virtudes cardeais. Considerado de modo restrito, justiça é a constante e perpétua vontade de conceder o direito a si próprio e a outros segundo a igualdade. É uma virtude subjetiva, portanto.

Na matemática, a igualdade é a característica das quantidades substituíveis uma pela outra sem modificação. Por analogia, igualdade é a relação entre dois termos, em que um pode substituir o outro. Na ética e na política, há igualdade quando os direitos e os deveres, as prescrições e as penas são iguais para todos os cidadãos.

Quando falamos de direitos e deveres, estamos nos referindo à acepção do direito como poder ou faculdade. A Constituição Brasileira nos diz que cada um de nós tem o direito de viver, de ser livre, de ser respeitado como pessoa etc. Cada um de nós tem o dever de lutar pelos direitos iguais para todos, de defender a pátria, de preservar a natureza etc. Ser cidadão é exercer a sua cidadania, ou seja, fazer valer os seus direitos e suas obrigações. Exemplificando: temos o direito de receber energia elétrica; por outro lado, temos o dever de pagar a conta mensalmente.

Segundo Aristóteles, a justiça é a virtude integral e perfeita. Ela abrange todas as outras. Quanto à igualdade, distingue dois tipos: a aritmética e a geométrica. Em se tratando da igualdade aritmética, ele explica que quando alguém provoca prejuízo ao outro, deve restituí-lo do prejuízo, para que a situação volte à inicial, que era justa. Na igualdade geométrica, um bem é distribuído entre duas pessoas "de acordo com o seu valor". O princípio subjacente é este: "Uma distribuição é justa quando iguais recebem partes iguais e desiguais partes desiguais".

Dada a dificuldade de se ter uma definição precisa da justiça, os filósofos propuseram um sistema de valor recorrendo aos seguintes fins: a) felicidade; b) utilidade; c) liberdade; d) paz.

a) Para Aristóteles, o fim da justiça era a felicidade. São Tomás de Aquino, por sua vez, identificou o bem comum aristotélico com a doutrina da bem-aventurança eterna.

b) No mundo moderno, Hume disse: "A utilidade é o fim da Justiça. É propiciar a felicidade e a segurança, mantendo a ordem na natureza".

c) Kant identificou justiça e liberdade: "A tarefa suprema da natureza em relação à espécie humana" é uma sociedade em que a liberdade sob leis externas esteja unida no mais alto grau possível, a um poder irresistível, o que é uma constituição civil perfeitamente justa.

d) Hobbes introduz a paz: "É justa a ordenação que garanta a paz, afastando o homem do estado de guerra de todos contra todos, em que vivem no ‘estado natural’".

Fonte de Consulta

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

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Zoroastro já nos ensinava com a máxima: “Se não souberes ao certo se uma ação proposta é justa ou injusta, abstém-te”.

Jeremy Benthan, no seu utilitarismo, diz: “A maior quantidade de felicidade para o maior número de indivíduos”. Para ele, “Um castigo adequado ao crime” é um princípio utilitário. Parte da premissa de que os indivíduos buscam o prazer e evitam a dor. Quer desenvolver uma teoria do prazer e dor em bases científicas, em que o Estado deveria trabalhar para oferecer o maior nível de prazer ao povo.
Em se tratando das punições, a eficácia das leis deve basear-se na natureza da ofensa. Ou seja, as punições devem ser proporcionais às ofensas.

 

22 abril 2009

O Banquete de Platão, um Resumo

"O Banquete" é um livro de diálogos de Platão atribuído a ele mesmo e não a Sócrates, seu mestre. O pano de fundo são os sete discursos acerca do deus Eros, o deus do amor. Diz-se que depois de muitas festas, com bebidas em excesso, resolveram dar uma trégua à orgia e instituíram um encontro filosófico sobre o elogio ao deus Eros, sugerido por Erixímaco. Os oradores, em ordem de apresentação, foram: Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agaton, Sócrates e Alcibíades.

Fedro, o primeiro orador a falar, coloca o Eros como um dos mais antigos deuses, que surgiram depois do Caos da terra. Pelo fato de ser antigo, traz diversas fontes de bem, que é o amor de um amante. De tudo o que o ser humano pode ter – vínculos do sangue, dignidade e riquezas – nada no mundo pode, como Eros, fazer nascer a beleza. É o Eros que insufla os homens a grandes brios. Só os que amam sabem morrer um pelo outro.

Pausânias, o segundo a falar, critica o elogio a Eros, feito por Fedro, porque o deus Eros não é único, pois há o Eros Celeste e o Eros Vulgar. Para ele, qualquer ação realizada não é em si mesma nem boa nem ruim. Para que uma ação seja boa, ela deve se fundamentar na justiça. O mesmo se dá com o amor. Atender ao Eros Vulgar é prender-se à cobiça, à iniquidade e aos caprichos da matéria. Para atender ao Eros celeste, deve agir segundo os cânones da justiça e da beleza celeste.

Erixímaco, o terceiro orador, educado nas artes médicas, quer completar o discurso de Pausânias, dizendo que o Eros não existe somente nas almas dos homens, mas em muitos outros seres: nos corpos dos animais, nas plantas que brotam da terra, em toda natureza. Para ele, a natureza orgânica comporta dois eros: saúde e doença, e que "o contrário procura o contrário". Um é o amor que reside no corpo são; o outro é o que habita no corpo enfermo. Tal qual a medicina, que procura a convivência entre os contrários, o amor deve procurar o equilíbrio entre as necessidades físicas e espirituais.

Aristófanes, o quarto orador, começa o seu discurso enfatizando o total desconhecimento por parte dos homens acerca do poder de Eros. Para conhecer esse poder, ele diz que é preciso antes conhecer a história da natureza humana e, dito isto, passa a descrever a teoria dos andróginos, que é o mito da nossa unidade primitiva e posterior mutilação. Segundo Aristófanes, havia inicialmente três gêneros de seres humanos, que eram duplos em si mesmos: havia o gênero masculino masculino masculino, o feminino feminino feminino e o masculino feminino masculino, o qual era chamado de Andrógino.

Agaton, o quinto orador, critica os seus antecessores, pois acha que eles enalteceram Eros sem contudo explicar a sua natureza. Ele diz: "Para se louvar a quem quer que seja, o verdadeiro método é examiná-lo em si mesmo para depois enumerar os benefícios que dele promanam". Diz, ao contrário de Fedro, que Eros é um deus jovem. Depois passa a enumerar as suas virtudes, ou seja, a justiça, a temperança e a potência desse deus.

Sócrates, o sexto orador, considerado o mais importante dos oradores presentes, afirma que o amor é algo desejado, mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe falta e não quando possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais. Segundo Platão, o que se ama é somente "aquilo" que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O "objeto" do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está sempre mais além, sempre que pensamos tê-la atingido, ela se nos escapa entre os dedos.

Alcibíades, o sétimo orador, procura muito mais fazer um elogio a Sócrates do que discorrer sobre o amor.

 

 

03 abril 2009

Quatro Conceitos dos Pré-Socráticos

"Todo homem tem opiniões, mas poucos são os que pensam." (George Berkeley, o filósofo irlandês do século XVIII)

Os pré-socráticos são os filósofos que primeiramente aprenderam a olhar o mundo de uma forma científica e filosófica. Foram eles que substituíram o olhar mítico pelo olhar do logos, do racional. Os cientistas de hoje podem se orgulhar de suas vastas descobertas, mas não podem se esquecer daqueles que deram os primeiros passos na busca do conhecimento, do conhecimento pelas causas. Em se tratando dos filósofos pré-socráticos, há quatro conceitos fundamentais: kosmos, physis, arché e logos.

Kosmos. É o universo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é "ordenar", "arranjar", "comandar". Um "cosmo" é um arranjo ordenado. Mais que isso, é um arranjo dotado de estética, algo que embeleza, que é agradável de se contemplar. Se é ordenado, deve, em princípio, ser explicável. Desta palavra surgiram: cosmogonia (lendas e teorias sobre as origens do universo), cosmopolita (cidadão do mundo), cosmético (relativo à beleza humana).

Physis ou "natureza". O termo deriva de um verbo cujo significado é "crescer". Introduz uma clara distinção entre o mundo natural e o artificial, entre as coisas que se "desenvolvem" e aquelas que são fabricadas, entre a physis e a techne. Uma mesa provém da techne; uma árvore, da physis. Em muitos casos, physis e kosmos passam a ter o mesmo significado. Em outro sentido, o mais importante para eles, é que physis passa a denotar algo existente no próprio objeto. Por isso, diz-se que quando os pré-socráticos estavam investigando a natureza, eles estavam buscando a natureza das coisas.

Arché. É um termo de difícil tradução. Seu verbo cognato tanto pode significar "começar", "iniciar", como também "reger", "dirigir". Arché é um princípio; physis, é crescimento. Os filósofos pré-socráticos perguntavam: de onde se origina então o crescimento? Como este teve origem? Quais são seus princípios originais? Estas questões tinham por fim achar o arché das coisas. Tales de Mileto, por exemplo, achou que o primeiro princípio era a água. Mais tarde, foi provado que esta hipótese era falsa. Mas isso pouco importava, pois o que era merecedor de elogios é o modo como argumentavam, ou seja, como punham à prova as suas opiniões, eliminando por completo o dogmatismo.

Logos. É de tradução ainda mais difícil do que a de arché. É cognato do verbo legein, que normalmente significa "enunciar" ou "afirmar". Assim, logos é por vezes enunciado ou afirmação. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, desdobrá-lo. Quando Platão afirma que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, ele não queria dizer que essa pessoa era capaz de descrevê-las, mas de explicá-las, ou seja, de apresentar razões dessas coisas. Em síntese, logos é razão, racionalidade, raciocínio, argumentação e evidência.

Os pré-socráticos apresentavam argumentos. Eles não se importavam se estes eram verdadeiros ou não; estavam muito mais preocupados com o método, a maneira, a forma de buscar o conhecimento, do que o conhecimento em si mesmo.

Fonte de Consulta

BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Tradução Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (Clássicos)

 

 

21 março 2009

Viver em Comunidade

Aristóteles, em Ética a Nicômaco, trata de diversos temas, tais como, amizade, felicidade, justiça, igualdade e liberdade. Para ele, toda virtude ética possui também uma relação social. Dizia que o verdadeiro ser do ser humano é ser para o outro. Esta relação social caracteriza a comunidade, a pólis. Daí, a sua definição de que o ser humano é um animal social, devendo viver em sociedade. 

O elemento básico de uma comunidade é a necessidade. Ninguém é uma ilha; cada um precisa do outro. Assim, uma comunidade é composta de muitos caracteres; cada qual deve completar o que outro necessita. Nesse caso, tanto é importante o doutor quanto o lixeiro, o professor, o agricultor. Pergunta-se: como irá governar o presidente da república se não houver os serviços do lixeiro, do agricultor?

Para Aristóteles, a colaboração entre as pessoas só é possível mediante um intercâmbio justo. A justiça é fundamentada na cooperação entre as partes de um todo. O que reúne as pessoas são as necessidades e o fato de que sozinhas elas não são capazes de satisfazê-las. "Sem comunidade, não há sobrevivência; sem intercâmbio, não há comunidade; sem igualdade, não há intercâmbio". Uma cooperação libertadora só poderá ser garantida quando uma comunidade servir aos interesses de todos os envolvidos. Só quando se faz valer o bem a polis permanece coesa.

Sem justiça não há comunidade, e a comunidade está a serviço do benefício, mesmo sendo o benefício comum. Mas a pessoa só consegue chegar a essa autoconsciência em conjunto com outras pessoas. A forma mais elevada de comunidade humana consiste no reconhecimento mútuo, no qual as pessoas desenvolvem uma autoestima.

Fonte de Consulta

RICKEN, Friedo. O Bem-Viver em Comunidade: A Vida Boa Segundo Platão e Aristóteles, da editora Loyola.

13 março 2009

Auto-Imagem

De acordo com Maxwell Maltz, autoimagem é o resultado de nossos êxitos e fracassos, humilhações e triunfos, e da maneira como as outras pessoas reagem em relação a nós. Muitas vezes esta autoimagem é falsa — mas agimos como se ela fosse verdadeira. Para todos os efeitos, ela passa a ser verdadeira. Exemplificando: se o fracasso profissional ronda a nossa esfera de ação, é possível que nos sintamos inúteis a tudo que nos cerca. Contudo, isto pode ser uma ilusão de nossa parte e não o fato em si.

autoimagem pode ser medida: são as roupas que vestimos, os gestos que fazemos, as posturas que adotamos. Ela não é estanque. Significa que podemos mudá-la. Roupas desleixadas podem formar uma imagem negativa de nós mesmos. Se nos esforçarmos em andar alinhado, com certeza iremos mudar a imagem que as pessoas fazem de nós. Este exemplo pode ser estendido para outros detalhes de nossa vida.

A suposta "verdade subjetiva" dificulta a mudança de nossa autoimagem. Contudo, se alterarmos a nossa auto concepção, poderemos encarar as coisas de maneira totalmente diferente. Napoleão Bonaparte, certa vez, disse: "A raça humana é governada pela imaginação". Urge, assim, rebelarmo-nos contra o nosso espírito negativo, irreal ou inviável. Ao contrário, procuremos construir autoimagens saudáveis.

Os grandes pensadores da humanidade estão sempre nos orientando a mudar as nossas atitudes e os nossos comportamentos. Para a pergunta, como o indivíduo pode perder a escravidão e ganhar a liberdade, eles respondem: "Mude a maneira de pensar"; "Examine as suas crenças"; "Mude de atitudes"; "Verifique as premissas"; "Altere os pontos de vista"; "Desafie as suas hipóteses".

Não nos iludamos com a opinião alheia. A opinião não é uma verdade. Além do mais, cada um vê o mundo segundo os seus olhos. Vale mais a imagem (consciente) que fazemos de nós mesmos do que toda e qualquer crítica de um terceiro

Primeiro o que vem primeiro; depois, o que vem depois. Invistamos o nosso tempo somente nas coisas essenciais e teremos mais tempo para cultivar a nossa alma imortal.