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04 julho 2008

Violência e Educação

A violência caracteriza-se pelo autoritarismo na educação, pelo monopólio do poder nas esferas governamentais, pela corrupção dos homens de Estado, pela posse de coisas ilícitas, pelos esforços de santidade, pelo egoísmo material, pelo consumismo exacerbado, pelo individualismo etc.

O autoritarismo na educação, uma das formas de violência apontada, pode ser observado na conduta de alguns educadores que, tendo o dever de intervir em vidas através de um convite ao conhecimento, acabam por invadi-las através de um diálogo doutrinante. Agindo desta forma, nada mais fazem do que estender suas próprias confusões mentais. A verdadeira educação, por outro lado, tem como paradigma central ensinar o educando a pensar com a própria cabeça, inclusive estimulando-o a contradizer sempre que sentir que os outros não estão expressando a verdade dos fatos.

Os meios de comunicação social têm papel relevante na disseminação da violência, uma vez que dá valor ao extraordinário (assalto, brigas, sequestro) em detrimento do cotidiano (trabalhar, divertir-se, estudar). Observe, por exemplo, o estímulo de compra: a imagem veiculada pode ser a sugestão ao consumo de bebida, sexo, divertimento etc. Suponha que o receptor da mensagem veiculada não tenha recursos para usufruir do referido bem. O que ele fará, uma vez que o imaginário tornou-se, depois de veiculado, uma necessidade real? Muitos que não têm força moral elevada acabam por aderir ao crime, à violência.

O individualismo e o consumismo são outras formas de violência. É que na atualidade há um processo de reificação (coisificação), em que os indivíduos estão se transformando em coisas, inclusive em coisas descartáveis quando já não mais produzem. Confundimos o ter com o ser; por isso a ênfase que damos à posse, ao status social, à riqueza, ao utilitarismo. Nesse sentido, o efeito demonstração da economia assume papel relevante no destaque dos atos violentos. Pensamos: se o meu vizinho tem por que eu não posso ter? Se ele sobressaiu-se na vida, por que eu também não posso? As coisas estimulam-nos a ter, preterindo o ser, bom, amável, atencioso, prestimoso.

Distingamos razão e emoção. Desde que surgiu Descartes, e com ele o racionalismo, a razão tornou-se um mito, que nos dizeres de Alceu Amoroso Lima, é tomar o absoluto pelo relativo. Foi isso mesmo o que aconteceu com a razão; elevamo-la à condição de deusa, em detrimento da fé, da emoção e do sentimento. O anseio pelo tecnicismo, pela posse, pelo consumo faz-nos esquecer de que o século XXI, que ora se inicia, será um século de luzes espirituais, em que prevalecerão as coisas do espírito e não as da matéria.

A violência apresenta-se tanto de forma ostensiva como de forma sutil. Saibamos detectá-las onde quer que se encontrem, procurando o caminho inverso, ou seja, o caminho da paz, da confraternização e da cooperação mútua. 

Fonte de Consulta

MORAIS, R. Violência e Educação. Campinas, SP, Papirus, 1995. (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).

29 junho 2008

A Cultura da Violência e o Princípio da Não-Violência

A origem da violência está na "cultura da violência". A "cultura da violência" — para ter o êxito que tem — necessita da "ideologia da violência". A ideologia, que é uma forma de pensar que não condiz com a verdade, fornece os subsídios teóricos para que a violência tenha uma aparência de racionalidade. Ainda mais: a violência é a matéria-prima da atualidade. Os meios de comunicação de massa não estão preocupados com as causas e as razões da violência; o sensacionalismo tem mais peso, pois atinge diretamente o emocional do ser humano.

A violência e a não-violência passam pela discussão da relação entre os meios e os fins. O provérbio nos diz: "Os fins justificam os meios". Eric Weil, filósofo e pensador francês, defende tal posição. Para ele, o objetivo da existência humana é conquistar a não-violência. Porém, mesmo tendo esse objetivo em mente, ele aceita que os meios empregados possam ser violentos. Devemos aceitar passivamente tal ponto de vista? Não? É preciso que tanto os meios como os fins sejam não-violentos; se uma das partes for violenta, o todo refletirá tal comportamento.

A violência pode ser vista nos escritos de diversos pensadores. Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, foi um dos primeiros a afirmar a necessidade de recorrer à violência para governar a sociedade dos homens. Para ele, o mal não está na crueldade, mas na crueldade "mal empregada". Hegel também faz a sua apologia da violência. Para ele, o "estado de natureza" em que se encontram os homens em meio à sociedade civil é o "estado de violência". Max Weber, em O Ofício e a Vocação do Homem Político, ilustra bem a ideologia da violência no que concerne ao homem público. Para ele, aquele que quiser recusar a violência deve forçosamente renunciar à ação política.

Gandhi tornou-se mundialmente famoso pela prática da não-violência. A sua celebridade, contudo, não foi suficiente para que as pessoas o conhecessem. Apenas associam a não-violência ao seu nome. Os ocidentais, por exemplo, têm uma postura defensiva, pois acreditam que Gandhi estava imerso num orientalismo religioso, sem grandes contribuições para fornecer à filosofia. Gandhi não era filósofo profissional. Ele tinha uma única preocupação na vida: a procura da verdade. Dizia: "Sem a não-violência, não é possível procurar e encontrar a verdade".

A não-violência é o princípio fundamental da filosofia. A filosofia — como modo autônomo de pensar — é um caminho na busca da verdade. Para que o ser humano se liberte do seu passado e conquiste o seu futuro, ele necessita da não-violência, seja em que circunstância for. Possivelmente, ainda há muita luta para vencer a violência que há dentro de cada um de nós. Contudo, esse esforço não é inútil. É ele que vai dar à filosofia o instrumental necessário para que a humanidade se torne senhora desse princípio, o princípio da não-violência.

Viver de acordo com a não-violência não é tarefa fácil. Os automatismos do ódio e da vingança ainda estão arraigados em nosso subconsciente. É preciso muita fibra interior para não se deixar levar pela "cultura da violência" e pela "ideologia da violência", vigentes no mundo todo

Fonte de Consulta

MULLER, Jean-Marie. O Princípio da Não-Violência. Tradução de Inês Polegato. São Paulo: Palas Athena, 2007.