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02 julho 2008

Reconstruir o Conhecimento

Aprender significa redescobrir e reconstruir o conhecimento adquirido. Na obtenção do conhecimento, dois erros devem ser evitados: 1) aumentarmos desordenadamente as informações recebidas; 2) não buscarmos nenhuma informação exterior. No primeiro caso, podemos nos tornar uma pessoa erudita, em que os saberes são desconexos, isto é, sem análise ou crítica; no segundo caso, podemos imitar Narciso que ficou enamorado de sua própria beleza. Há necessidade da informação exterior, contudo ela deve passar por uma destilação, até tornar-se conhecimento apreendido.

O conhecimento, para ser de fato conhecimento, deve ser fruto da necessidade do aprendiz. Diz-se que ninguém deseja o que ignora, ou seja, no desejo já há uma antecipação do que se gostaria de aprender. Por isso, seguirmos os nossos insights pessoais tem mais peso do que atendermos a interesses meramente financeiros, principalmente aqueles que nada têm a ver com a nossa realização pessoal. Estes, muitas vezes, podem refrear a nossa criatividade e distanciar-nos de nossa evolução espiritual.

Algumas ideias a respeito da educação: "Educação consisti em substituir, no sujeito, o princípio do prazer pelo princípio da realidade"; "Educar alguém é convencê-lo a integrar-se a uma sociedade, no sentido de fazê-lo obedecer às leis vigentes"; "Toda aprendizagem autêntica requer uma ruptura com relação às representações antigas e aos preconceitos anteriores"; "O professor deve ensinar o aluno a se esforçar porque, por natureza, o aluno é quase sempre passivo".

De que maneira o professor pode auxiliar os seus alunos? Colocando-se como gestor das solicitações destes. Agindo de outra forma, diminui drasticamente a eficácia do ensino. O bom professor não é aquele que busca informação e, depois de absorvida, derrama-a inescrupulosamente na cabeça dos seus alunos. Para que ensine com eficácia, é importante que veja os seus alunos dentro das necessidades e do meio ambiente em que vivem. As técnicas oratórias ensinam-nos que, se não houver sintonia entre o emissor e o receptor, a mensagem não será absorvida.

O professor moderno não é aquele que sabe tudo. Ele deve se colocar mais como um facilitador de aprendizagem do que um comunicador de matéria. Os alunos de hoje são diferentes do de ontem, pois têm mais facilidade de obter informações: Internet, jornais, revistas, livros e Televisão. O professor que não assumir uma atitude de aprendizado, inclusive obtendo conhecimento dos próprios alunos, está fadado ao fracasso. Eu não sei, mas podemos buscar juntos a solução do problema, eis a atitude didática por excelência.

Reconstruir o conhecimento é romper com as barreiras do preconceito anterior para que o homem novo possa surgir com todo o seu vigor.

Fonte de Consulta

MEIRIEU, Philippe. Aprender...Sim, mas Como? Tradução de Vanice Pereira Dresch. 7.ed., Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.


01 julho 2008

A Criança e o Ensino de Filosofia

O ser humano, especialmente na fase infantil, está à procura do significado. De que maneira a filosofia pode auxiliar nessa busca? Para Lipman, criador do programa de filosofia para as crianças, "O que os filósofos e as crianças têm em comum é a capacidade de se maravilhar com o mundo". Assim sendo, a busca desse significado deve partir do exercício filosófico por excelência, ou seja, do assombro da criança em relação ao conhecimento. Deve partir dela e não de algo imposto por outrem.

A filosofia deve oferecer à criança os recursos necessários para o seu pensar. Esses recursos poderiam ser descritos como a verdadeira educação para o pensar. A educação para o pensar inclui a busca do conceito, o diálogo e a crítica reflexiva. As crianças devem ser educadas a expressar – falar e escrever – as palavras pelo seu sentido próprio. Embora tal comportamento cause transtornos e inquietações, ela não deve recuar porque aí está todo o desenvolvimento de seu ser psíquico, físico, intelectual e moral.

O professor ou professora de filosofia para crianças tem uma grande tarefa: criar condições para que a criança aprenda a se relacionar com o outro. Assim, deve aprender a emitir opiniões e a ouvir as dos outros. Numa discussão, o outro também tem razão; por isso, não há necessidade alguma de monopolizar uma reunião. A criança deve ser educada a estar sempre pronta para aprender, venha o conhecimento de onde vier. A sua leitura não deve ser passiva, mas que a ajude a construir o seu próprio pensamento.

O que se poderia abordar num curso de filosofia para as crianças? Tendo as crianças dispostas em círculos, poder-se-ia lançar algumas perguntas: "O que é amizade? O que é ser pessoa? O que é o real? O que é o medo? O que é a verdade? O que é a injustiça? O que é cidadania? Como o poder é exercido? A morte é o fim de tudo? Sabemos nos comunicar?" Para cada pergunta formulada, uma orientação ao debate, ao diálogo saudável e instrutivo.

Algumas impressões das crianças, extraídas de reuniões e de Congresso de Filosofia entre Crianças: "Através do diálogo fica mais fácil mudar de atitude"; "Depois de uma discussão eu me sinto mais gente"; "Pessoa gera pessoa quando há respeito, boa comunicação, entendimento, compreensão amor e verdade"; "Como separar a pessoa do cidadão? É impossível, pois, um depende do outro, seria como separar água nas suas substâncias formadoras e portanto não seria mais água".

A coparticipação do pensamento é a internalização do diálogo. Evitemos a fragmentação e a crescente especialização do conhecimento. Esforcemo-nos para torná-lo crítico, criativo e cuidadoso.

Fonte de Consulta

MURARO, Darcísio N. Filosofia para Crianças: Educação para o Pensar. In PIOVESAN, Américo et al. (org.). Filosofia e Ensino em Debate. Rio Grande do Sul: Unijui, 2002. (Coleção Filosofia e Ensino, 2).