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28 fevereiro 2026

Filosofia e o Mundo do Trabalho

O mundo do trabalho é caracterizado pela produção. É um fazer ininterrupto de coisas com o propósito de aumentar o bem-estar da humanidade. Daí o desejo insaciável que nos estimula a consumir cada vez mais. Como somos homo faber antes de sermos homo sapiens, acabamos dando ao trabalho o fim último de nossa existência. No mundo do trabalho, a tecnologia e a economia de escala são requeridas insistentemente, e acabam nos aprisionando cada vez mais a este mundo material. Em muitos casos, a preocupação excessiva com o que comer e com o que vestir leva-nos a um esgotamento nervoso. 

O que diferencia o "útil" do "inútil"? O útil é sempre meio, intermediário. Ele não vale por si mesmo, mas pelo poder de intermediação. Uma cadeira é útil porque foi criada para as pessoas sentarem. Ela não é útil a si mesma, ou seja, ela não se senta nela. A palavra inútil, por sua vez, significa: 1) que não tem fim algum; 2) que tem um fim em si mesmo. Entre as atividades que têm um fim em si mesmo, anotamos a filosofia, a arte e a religião. Todas compreendem uma espécie de gozo metafísico do Espírito.

A filosofia transcende o mundo do trabalho. A filosofia se atém ao "bem comum" enquanto o trabalho à "utilidade comum". O bem comum é muito mais amplo do que a utilidade comum, pois engloba a totalidade do ser. A filosofia, embora inútil, não vive sem o mundo do trabalho. Há uma certa complementaridade entre esses dois conceitos. Santo Tomás de Aquino dissera certa vez que para haver o bem comum há necessidade de haver pessoas que se dediquem à arte do inútil e da contemplação, atividades essas completamente opostas às requeridas pelo mundo do trabalho.

A pseudofilosofia pretende também transcender o mundo do trabalho. Em Platão, Sócrates pergunta ao sofista Protágoras: "Que ensinas aos jovens que se achegam a ti"? E Protágoras responde: "O objeto de meu ensino é a prudência, quer na administração da própria casa, quer no modo de melhor influir na coisa pública, pela palavra ou pela ação". Todas essas pseudo-atitudes não só não transcendem como acabam enclausurando ainda mais as pessoas ao mundo do trabalho. 

Embora o inútil seja uma atividade totalmente livre, muitos acabam sendo condenados a buscá-la. Observe que algumas pessoas, por mais que queiram tratar das coisas materiais, são impulsionadas por uma força superior, a tratar exclusivamente das coisas relacionadas à melhoria do pensamento, sem outro qualquer interesse. No atendimento a esta nobre missão, acabam sendo incompreendidos e desprezados pelos outros seres humanos. Jesus Cristo, por exemplo, foi um desses incompreendidos, que veio nos ensinar a lei do amor e nós o condenamos a morrer na cruz, entre dois ladrões. 

Atendamos fielmente às nossas predisposições interiores. Seguir os apelos da consciência pode nos trazer muitos problemas. Contudo, vejamos a consequência de cada ação para a vida futura. Lembremos: Se o homicida soubesse, de antemão, as dores que o futuro lhe reserva, com certeza não praticaria tamanho crime. 

Fonte de Consulta

PIEPER, Josef. Que é Filosofar?; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.

 

 


01 julho 2008

A Filosofia Transcende o Mundo do Trabalho

O fato de a filosofia transcender o mundo do trabalho significa dizer que ela não lhe dá atenção? Não. Sem o mundo do trabalho o homem nem poderia filosofar. É que a corrida atrás da alimentação, vestuário, habitação, calefação está em primeiro lugar; as necessidades do progresso, tanto material quanto espiritual, além dos os anseios do desenvolvimento e da reconstrução de nossa pátria e do mundo, vêm depois. A função da Filosofia é dar uma direção mais concreta a tudo isso.

Tomás de Aquino disse que "O filósofo se parece com o poeta porque ambos se ocupam com o mirandum (maravilhoso)". Afirmou também que o bem comum só é possível se existir homens que se entreguem à "inútil" vida de contemplação; ao bem comum pertence que se exerça a Filosofia. Contudo, não se pode dizer que contemplação e Filosofia estejam a serviço da "utilidade comum", visto que utilidade comum é sempre meio, enquanto a filosofia tem um fim em si mesma.

Presentemente, a pretensão do mundo de trabalho torna-se cada vez mais total, embargando cada vez mais os passos do homem. Filosofar é discordar desse status quo. A Filosofia aparece, cada vez mais, com o aspecto de algo estranho, de mero luxo intelectual, de algo insuportável e indigno de ser tomado a sério. Assemelha-se à questão filosófica de Heidegger: "Mas, por que, afinal, existem coisas, e não só o nada?" Ora, onde não floresce o aspecto religioso, onde a arte não encontra lugar, onde o abalo da morte e do eros é privado de sua profundidade, aí não poderá florescer a Filosofia.

Filosofar é a forma mais pura de theorein, de speculari, de o simples olhar. Por que teórico? A palavra theos, de onde vem Deus, e quer dizer o ser que vê, nos dá theoria, que em grego quer dizer visão. E como os gregos, quando iam às suas festas religiosas nos templos, faziam longas filas, que vinham do horizonte e podiam ser vistas à distância, isto é, ter delas uma visão, chamaram-nas de theoria. Poder-se-ia, assim, dizer que a Filosofia é visão beatífica da totalidade das coisas que existem.

A admiração, o abalo e o êxtase têm, por natureza, romper os limites do "mundo circundante" e suprimir tanto a acomodação como o enclausuramento. Aquele para quem tudo se torna um mirandum pode muito bem esquecer que é preciso agir e trabalhar. É estranho que, sobretudo na Filosofia moderna, se considere somente este aspecto da admiração, de modo que a sentença dos antigos: "a admiração é o começo de toda Filosofia" foi convertida em: "no começo da Filosofia está a dúvida".

A admiração mostra que o mundo é mais profundo e mais misterioso do que pode parecer ao conhecimento comum. Sendo assim, a essência da admiração não é suscitar a dúvida, mas estimular o reconhecimento de que o ser como ser é inconcebível e misterioso.

Fonte de Consulta

PIEPER, Josef. Que é Filosofar; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.