25 novembro 2011

Novo Pensamento e Movimento do Novo Pensamento

A metafísica do Novo Pensamento ou Movimento do Novo Pensamento surgiu no século XIX, nos Estados Unidos. O seu idealizador foi Phineas Parkhurst Quimby. Na sua estrutura organizacional, há uma mescla de várias correntes filosóficas e religiosas: Deus, energia criadora, pensamento positivo, lei de atração, meditação, oração etc. Para os adeptos desta nova “religião”, o pensamento evolui e desabrocha e, com isso, modifica a nossa experiência neste mundo.

A essência do novo pensamento é estar sempre em perpetua modificação, porque se for finito, ele se encerra em si. A mente em crescimento constante não está no passado ou no que já tem; não aceita dogmas, ideias preconcebidas. Ela quer se transformar, subir ao mais alto grau de evolução que possa alcançar. Por isso, o esforço despendido no progresso do ser humano e da humanidade é uma constante.

O Novo Pensamento fundamenta-se na mente (e principalmente na sua modificação). Por isso, o Novo Pensamento tem sido difundido como a última invenção em como progredir a mente. É uma atitude da própria mente e não da filosofia ou da religião. Parte do princípio de que somos seres em evolução: física, mental e espiritual. A mudança e crescimento são as chaves para alcançar a perfeição.

O Novo Pensamento distingue-se do movimento New Age. O movimento New Age, iniciado por Marilyn Ferguson, com o seu livro Conspiração Aquariana, em 1989, tinha por objetivo juntar grupos díspares, tais como, a homeopatia, a gnose, a medicina alternativa, o esoterismo e as técnicas de meditação oriental. O novo pensamento baseia-se exclusivamente na mente. Ele não está interessado com os dogmas e nem o que acontece depois da morte. Simplesmente quer que a mente cresça para o grau de perfeição que possa alcançar.

Sintetizando: o Movimento do Novo Pensamento é composto de diversas denominações religiosas, organizações seculares, autores, filósofos, e indivíduos que compartilham um conjunto de crenças metafísicas referentes aos efeitos do pensamento positivo, Lei da atração, cura, força vital, visualização criativa e poder pessoal.


11 novembro 2011

Da Hominização à Humanização

hominização é o processo que, por aperfeiçoamentos sucessivos, caracteriza a evolução dos primatas ao homemSegundo Comte-Sponville, em seu Dicionário Filosófico, “A humanidade não é uma essência, é uma história, e essa história é, antes de tudo, natural: a humanização é esse processo biológico pelo qual o Homo sapiens se distingue progressivamente — por mutações e seleção natural — das espécies de que descende”.

Em se tratando da humanização, podemos dizer que todos nós nascemos homem ou mulher para, depois, nos tornarmos humanos. Esse processo é o prolongamento normativo da hominização.

Passar do estado de hominização ao estado de humanização é o esforço que todo o ser humano deve encetar. Para isso, há necessidade de desenvolver o intelecto e a moral. É o fortalecimento das virtudes de que nos fala a maioria dos filósofos.




 

08 novembro 2011

Ordem e Desordem

A ordem dá-nos a impressão de um controle sobre a realidade. Acontece que a desordem é muito mais corriqueira do que a ordem. Veja a entropia* na termodinâmica

Em termos do par ordem/desordem, Marchel Conche diz que “A ordem não passa de um caso particular da desordem”: é uma desordem cômoda, eficaz ou significativa. Observe a ordem alfabética. Por que o termo a deve vir antes do b, e o b antes do c? Porque as pessoas concordaram com essa ordem. Não poderia ser outra?

Onde queremos chegar com essa pequena reflexão? Que a desordem não é tão ruim como muitos apregoam. Ela, muitas vezes, pode ser útil, pois se tudo estivesse ordenado, ninguém encetaria uma busca para procurar um objeto, um apontamento, um livro disperso na estante.

Sintetizando: a ordem é uma desordem cômoda; a desordem, uma ordem incômoda.

*Entropia. Do grego entropié, volta, retorno. "A entropia é a quantidade termodinâmica que mede o nível de degradação da energia de um sistema" (Jacques Monod). O termo passa a ter uma aplicação geral, designando a medida de desordem de um sistema, uma vez que o equilíbrio térmico é considerado o estado mais provável em que se encontra o universo. A entropia significa, assim, a extinção e a "morte", por perda de energia, do universo. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

 

05 outubro 2011

Moral

Moral. Do latim morales, “relativo aos costumes”. A raiz mores significa costumes e também comportamento. Por isso, define-se a moral como o “conjunto de normas que orientam o ser humano para a realização do seu fim”. A moralidade, por sua vez, para ser viável, necessita de um código moral, coercitivo e permissivo, no sentido de equilibrar ônus e recompensas. Observe que na moral religiosa, eles vêm depois da morte; na moralidade humana, nesta própria vida.

A moral não tem necessidade de um porvir. O presente lhe basta. Por quê? O valor de uma ação não depende de seus efeitos esperados, mas simplesmente da regra à qual se submete. Se nos fosse anunciado o fim do mundo, em nada abalaria a nossa moral, pois para ela tanto faz estar neste mundo como em outros.

Sócrates estava à frente de sua época. Ele dizia: 1) ninguém faz o mal voluntariamente; 2) é melhor ser ofendido do ofender. Essas afirmações se chocam com as “morais médias”, que reconhecem a cada um a necessidade de possuir um mínimo de bens, e o direito de defender os seus interesses legítimos. Por isso, enfatiza que em nenhum caso se deve fazer o mal, inclusive aos inimigos. Como era evidente para todo o mundo que se devia fazer bem aos amigos e mal aos inimigos, estas afirmações foram revolucionárias e fora de época.

Seguindo o seu raciocínio, vemos que o maior dos males é cometer uma injustiça. Pregava, assim, que não se devia responder a injustiça com a injustiça. É sempre melhor sofrer um agravo do que cometê-lo. Quem sofre, tem meios de se consolar. Quem os comete, não. Deverá “pagar” pelo que fez.

Kant, por sua vez, analisa as nossas ações tendo em mente os tópicos “acordo com o dever” e “por dever”. Quando a pessoa age de acordo com o dever, ela apenas obedece às ordens: não há esforço da criatura. Quando age por dever, coloca todo o seu ser em cada ação, lutando contra as suas próprias inclinações.

Exercitemos a moral, sem sermos moralistas. Querer controlar os outros, sob o guante de nosso ponto de vista, é prejudicial à verdadeira moral, que procura estimular aperfeiçoamento do ser humano, afastando-o do mal. Lembremo-nos de que, segundo Sócrates, “fazer o mal é ter uma alma doente”.

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Sócrates, um dos primeiros e maiores filósofos morais, disse que a moralidade não é sobre “uma questão menor, mas como nós devemos viver”.

Essência da moralidade: para descobrir a verdade, devemos deixar os nossos sentimentos serem tanto quanto possível guiados pela razão. A coisa moralmente certa a se fazer é sempre a coisa melhor fundamentada por argumentos.

21 setembro 2011

Filosofia é Amor à Sabedoria?

Jean-Joël Duhot, no capítulo 4 da segunda parte, “O Filósofo e os Sofistas”, do livro Sócrates ou o Despertar da Consciência, acha que houve um erro de tradução no “amor à sabedoria”. Sophia não significa “sabedoria”, como também sophos não quer dizer “sábio”.

Explicação: Na Grécia da Antiguidade, conhece-se o xamã, mas não o sábio. Geralmente, phronesis (prudência) e sophrosyne (moderação, temperança) são os dois termos traduzidos às vezes por “sabedoria”. Trata-se, pois, da sabedoria prática.

sophia é a habilidade, o saber-fazer, o saber em sentido geral, e o sophos é o homem hábil ou que sabe.

09 setembro 2011

Sócrates como "Parteira"

Como Sócrates, sendo um sofista, combateu os sofistas?

O termo “sofista” não é uma corrente de pensamento; designa, antes, uma atividade profissional: os professores. Os sofistas ganhavam muito dinheiro vendendo saberes; Sócrates afirma nada saber. Nesse caso, não tem nada para vender.

A concepção de conhecimento, em Sócrates, dá-se pela maiêutica. Na maiêutica, Sócrates apresenta-se como uma parteira (ofício de sua mãe), mas no sentido metafórico, ou seja, faz os homens parirem conhecimento.

Em certa passagem do Teeteto, ele diz: “Deus me força a fazer os outros darem à luz, mas me proíbe de parir”. Sócrates faz os discípulos fazerem incríveis progressos sem nada lhes ensinar. Este era o grande segredo de Sócrates: as pessoas ficavam engravidadas de conhecimento somente pela frequentação do seu mestre.

DUHOT, Jean-Joël. Sócrates ou o Despertar da Consciência. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004, segunda parte, cap. 3.

 

26 agosto 2011

Os Sonhos e os "Demônios" de Sócrates

Para Sócrates, os sonhos podem ser advertências divinas. No Críton, foi advertido em sonho do dia em que sua execução ia ocorrer. Na Apologia, afirma-se investido de uma missão divina revelada em sonhos.

Diotima, no Banquete, define o daimon: intermediário entre os deuses e os homens, transmite aos homens mensagens divinas, quer de dia, quer de noite, através dos sonhos, ou por intermédio dos oráculos.

Na Antiguidade, um daimon é ao mesmo tempo um mediador e um mensageiro (anjo). Na realidade, o famoso “demônio”, de Sócrates não é um demônio. Não emprega o nome daimon, mas seu adjetivo, daimonios — demônico.

Sócrates relata que o demônico começou desde a sua infância. Dizia: “Uma voz que só se produz para me afastar do que vou fazer, mas não me impele nunca a agir”. Trata-se, pois, de uma voz que só transmite proibições divinas.

DUHOT, Jean-Joël. Sócrates ou o Despertar da Consciência. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004, p. 94 a 96.

 


24 agosto 2011

O Processo de Sócrates

Em 399, Sócrates foi objeto de uma acusação apresentada por três homens, Anitos Meletos e Licon. É mais um processo religioso do que político.

As três acusações são

1) Não reconhecer os deuses da cidade

2) Introduzir novos seres divinos

3) Corromper a juventude.

De acordo com Jean-Joël Duhot, em Sócrates ou o Despertar da Consciência, o desenrolar do processo sofreu um deslize: “Os juízes deviam pronunciar duas vezes. Na primeira vez, tratava-se de determinar se o acusado era culpado, o que foi feito no caso de Sócrates, mas com uma fraca maioria. A segunda vez decidia a pena. Os acusadores pediam a morte e o acusado devia propor uma nova pena, mas a decisão cabia ao tribunal. O processo se decidiu nesse momento: Sócrates começou dizendo que merecia ser sustentado no Pritaneu, honra insigne, pelo bem que fizera à cidade, e propôs como pena uma multa ridícula. Seus amigos intervieram em seguida propondo uma soma muito mais importante, mas era tarde demais, e o tribunal teve o sentimento se que Sócrates zombava dele. Votou a morte com uma maioria mais forte do que tinha votado a culpabilidade”.

Sabe-se, também, que os seus discípulos haviam programado uma evasão, cuja concretização dependia da aprovação de Sócrates. Como defendia a obediência à lei, recusou tal proposta.

Defender ideias filosóficas, até o constrangimento no momento da morte anunciada, corrobora o estatuto de mártir e a grandeza de seu pensamento.

Ler O Processo, capítulo 3, de Sócrates ou o Despertar da Consciência, por Jean-Joël Duhot. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004.

 

 

19 agosto 2011

Que é Pensar?

1. INTRODUÇÃO

O que se entende por bem pensar? Será que sabemos pensar? Há alguma diferença entre pensar e ruminar pensamentos? É possível melhorar o nosso pensamento? Existe alguma técnica? Com essas perguntas introdutórias, damos início à nossa análise do tema. Nele verificaremos os princípios de aprendizagem, ferramentas utilizadas para o bem pensar e algumas anotações sobre o pensar por nós mesmos.

2. CONCEITO

Pensar, na significação etimológica do termo, quer dizer sopesar, pôr na balança para avaliar o peso de alguma coisa, ponderar.

A Parte e o Todo

"O que é bom para a parte pode não ser bom para o todo"

A relação entre a parte e o todo pode ser analisada sob vários ângulos: das ciências particulares, da religião, da conduta humana etc. No sentido genérico, cada ação, que é individual, tem uma dimensão mais complexa do que podemos imaginar. Observe um indivíduo jogando lixo na rua, poluindo o ambiente. Ele está limpando um bem privado, mas poluindo o bem público, portanto, influenciando a vida de outros seres humanos, como também o cosmos que o absorve.

Paulo, muito preocupado com o caráter parcial do conhecimento humano, imaginou o paraíso como um estado no qual alguém podia conhecer totalmente: "Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (I Coríntios, 13,12). Paulo advertiu nesta mesma epístola sobre as conclusões inexatas que podemos tirar em virtude de nossa limitação, quando encarnados: "Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos". 

Esta advertência religiosa não pode desestimular a nossa vontade em buscar um conhecimento global da realidade. Nos estudos da ordem e da desordem, a Física mostra-nos o caráter global desta relação, pois haverá ordem ou desordem sempre em relação a um padrão, nunca somente ao indivíduo isolado. Na Economia, fala-se da indústria e da firma. A indústria seria a totalidade de todas as firmas de um determinado ramo da atividade econômica. Por exemplo, a indústria de sapatos congregaria todas as firmas que produzem sapatos. Na linguagem, uma mesma palavra pode ter vários sentidos, dependendo da colocação na frase, e mesmo da maneira como a pronunciamos. 

No âmbito da política econômica, aprendemos que aquilo que é bom para a parte pode não ser bom para o todo. Explica-se: suponha que os salários de uma certa categoria da sociedade aumente em 10%. Esta categoria teve um ganho em relação aos demais salários da sociedade. Mas, imagine que todos os salários de todas as pessoas tivessem um aumento de 10%. O que aconteceria? O resultado seria nulo, ou seja, ninguém sairia ganhando nada. 

A reflexão sobre a relação entre a parte e o todo é sumamente valiosa. Precisamos sempre ver pelo prisma do outro. Geralmente, achamos que os outros devem suprir as nossas necessidades de pronto. E se eles não puderem atender-nos? E se Deus, que é causa primária de todas as coisas, acha por bem adiar a súplica? Como fica? Entendemos que a situação deve ser ponderada imparcialmente, a fim de não criarmos um viés entre a vontade divina (total) e a nossa (parte). Nesse mister, pensar que Deus escreve certo por linha tortas, ou que quando o trabalhador estiver pronto o trabalho aparece não deve ser desprezado. 

Nada há de inútil. O fluxo de energia que jorra de uma usina pode ser interrompido pela falta de uma simples tomada. Sejamos a simples tomada. Façamos a nossa parte e deixemos o resto por conta de Deus.

 

 

Dialética

SUMÁRIO1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Platão e Hegel: 4.1. A Dialética Platônica; 4.2. A Dialética Hegeliana; 4.3. Platão Versus Hegel. 5. A Elaboração do Pensamento: 5.1. As Perguntas do Filósofo; 5.2. Explicar É Desdobrar; 5.3. Postura Científica. 6. O Diálogo: 6.1. Crítica e Oposição; 6.2. A verdadeira Dialética Inclui a Tolerância; 6.3. Uns Complementam os Outros. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre a arte de discutir no sentido de melhorar a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.

2. CONCEITO

A dialética é, propriamente falando, a arte de discutir. A arte do diálogo. Como, porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos, chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e espécies, classificar idéias para poder discuti-las melhor (cf. Platão, Sofística, 253c)

Com o passar do tempo o termo evolui para um sentido mais preciso, designando "uma discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se habitualmente em presença de um público que acompanha o debate – como uma espécie de concurso entre dois interlocutores que defendem duas teses contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao nível de uma arte, arte de triunfar sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de o convencer" (Blanché, 1985).

A Filosofia e o Filosofar

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Considerações Iniciais. 3. Conceito de Filosofia: 3.1. Antiguidade; 3.2. Idade Média; 3.3. Idade Moderna. 4. O Filosofar: 4.1. Atitude Filosófica; 4.2. Os Questionamentos; 4.3. Espírito Crítico. 5. A Filosofia Espírita: 5.1. Tradição Filosófica; 5.2. A Filosofia Espírita Não Está nos Fenômenos; 5.3. Especulativa Versus Afirmativa. 6. Conclusão. 7. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo destes escritos é demonstrar que não precisamos ser exímios conhecedores da filosofia, nem mesmo ter frequentado uma Universidade, porque o ato de filosofar encontra-se naturalmente em nosso âmago. Basta apenas exercitá-lo pela discussão, pelo debate e pela troca de ideias.

2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A filosofia não é uma atitude de resignação serena face aos caminhos da existência: não se trata de uma atitude, mas de um saber. A filosofia não é igualmente uma Weltanschauung (visão de mundo), pois que se pretende dela que seja explícita e sistemática. Não se identifica nem com a ideologia, na medida em que não se coloca ao serviço de uma causa, nem com a religião, visto que se esforça por apelar unicamente à razão. Finalmente e, sobretudo, a filosofia diferencia-se da ciência ao explicar a totalidade do real a partir de elementos que não se situam no plano fenomenal. Pode-se, por conseguinte, considerar a filosofia como um saber racional radical, incidindo sobre a totalidade do real e dando deste uma explicação última. (Thines, 1984)

A Virtude e as Virtudes

Virtude é uma disposição estável em ordem a praticar o bem; revela mais do que uma simples potencialidade ou uma aptidão para uma determinada ação boa: trata-se de uma verdadeira inclinação. Virtudes são todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Para o Espírito Emmanuel a virtude é sempre sublime e imorredoura aquisição do Espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos seus valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio. (Pergunta 253 de O Consolador)

Em termos históricos, o estudo da virtude se inicia com Sócrates (470-399 a. C.), para quem a virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana. Platão (429-347 a. C.), Aristóteles (384-322 a. C.), Kant (1724-1804), entre outros, dão também as suas contribuições ao estudo deste tema. 

Aspecto Prático da Virtude. Além do aspecto teórico da sua conceituação, estritamente conexo com o sistema filosófico no qual se enquadra a Ética, apresenta um aspecto prático de vivo e permanente interesse: como formar e desenvolver a virtude. É o campo da Psicologia Educacional e da Pedagogia. No educador exige antes de tudo o bom exemplo, tão necessário, especialmente no trato com as crianças, incapazes de longos raciocínios e vivamente levadas à imitação. (Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo)

“A virtude é portanto uma disposição adquirida voluntária, que consiste, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Digamos ainda o seguinte: enquanto, nas paixões e nas ações, o erro consiste ora em manter-se aquém, ora em ir além do que é conveniente, a virtude encontra e adota uma justa medida. Por isso, embora a virtude, segundo sua essência e segundo a razão que fixa sua natureza, consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado”. (Ética a Nicômaco, II, 6)

Para entender corretamente o texto filosófico, devemos localizar os termos mais importantes, e suas noções. Virtude (arétè) designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Aristóteles a emprega assim, embora lhe acrescente o valor moral. Disposição (héxis) é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será habitus se se retirar desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática. Mediedade (mésotès): este termo remete tanto ao termo médio de um silogismo quanto à média (ou ao meio termo) que caracteriza a virtude. 

Desde a Antiguidade até os nossos dias, as virtudes foram classificadas em Cardeais e Teologais. As Cardeais são adquiridas pelo esforço; as Teologais como um Dom de Deus. As cardeais são: prudência, fortaleza, temperança e justiça. As teologais são: a , a Esperança e a Caridade.

O movimentar-se diário produz hábitos. Os hábitos maus enraízam de tal sorte em nosso psiquismo que se tornam extremamente difíceis de serem eliminados. Em se tratando do esforço para extingui-lo, parece-nos que cometemos um erro que já se tornou secular, ou seja, combater a causa pelo efeito. Somente quando tomamos consciência do móvel que produz a ação é que podemos ter segurança na eliminação do efeito. Na realidade, não somos nós que deixamos os vícios; são eles que desprovidos da nossa atração, deixam-nos.

Fonte de Consulta 

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro, M.E.C., 1967.

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. Tradução de Paulo Neves. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Ferramentas)

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed., São Paulo, FEESP, 1995.

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.




05 agosto 2011

Cérebro e Pensamento

"Um cérebro bem nutrido produz pensamentos robustos."

Para que o cérebro esteja sempre leve, plástico e maleável, ele precisa de novidade, dificuldade, regularidade e, também, de bons alimentos. Pense em algo rotineiro: que tipo de sensação advém? Que tal coisa é simples; que somos levados a ajustar nosso comportamento ao mais prático, àquilo que não exige muito esforço. A coisa difícil requer mais tempo, mais dedicação do intelecto, do pensamento.

Sem uma boa dose de motivação, o cérebro tem muita dificuldade de experimentar o novo. Como, porém, ter motivação, se nossas emoções são negativas, se estamos cheios de ódio no coração? Urge renovarmos o nosso interior, as nossas atitudes e os nossos comportamentos. Faltando motivação, o cérebro enfraquece e estiola. O cérebro precisa de dificuldade, mas não tão exagerada, porque pode se transformar em desânimo, que nos leva à angústia e ao estresse.

Suponha uma pessoa tentando preparar uma palestra, com informações excessivamente mais difíceis do que a sua capacidade de expor. O que pode acontecer? Ele pode pesquisar, anotar dados e dispor tudo numa transparência de PowerPoint. No fundo, entretanto, o assunto não foi aclimatado em sua personalidade, em seu caráter. Procede como o papagaio que recita o que os outros lhe disseram. O seu cérebro não está recebendo a dose correta para o seu perfeito desenvolvimento.

O cérebro não tem necessidade de muita informação. Para ele, o que vale é a justa medida, aquela que fornece matéria prima para o seu dono, o espírito, se expressar. O cérebro é um meio, uma ferramenta de trabalho, por onde o Espírito se comunica, entra em contato com os demais seres humanos. Um cérebro oco, sem conteúdo, comunicará nada mais do que a aquilo que possui em si mesmo, que são os pensamentos superficiais, pensamentos fracos ou inautênticos, como diriam os filósofos.

Se, mesmo com pouca informação, o alimentarmos com dificuldade, com regularidade, ele vai se fortalecendo para, em pouco tempo, produzir frutos a cento por um. Observe as pessoas de idade que estão envoltas com atividades lúdicas, leitura, conversações, estudos e cursos. Elas alimentam o cérebro e retardam o aparecimento dos problemas neurodegenerativos.

Ofereçamos sempre dificuldade ao nosso cérebro. A resolução de problemas tem a sua compensação: felicidade de percebermos que somos capazes de muitas coisas nesta vida.

 

13 julho 2011

Poluição Virtual

Presentemente, as pessoas estão falando mais virtualmente. Os contatos presenciais têm diminuído. Saia de casa e pegue um ônibus: é raro não ouvir conversas telefônicas nesse pequeno trajeto. Depois, entre no metrô: dificilmente não ouvirá alguém falando ao celular. Posteriormente, ande pelas ruas da cidade: mais pessoas conversando sozinhas ao telefone. Isso é modernismo ou poluição sonora?

Pesquisas mostram que a idade das pessoas que têm aparelhos particulares (celular, televisão, notebook, etc.) avança para as crianças. O que antes era privilégio de um jovem de 12 a 15 anos está se concretizando em crianças de 7 anos. E não querem qualquer aparelho, mas os aparelhos de última geração. Com isso, o custo das crianças e dos jovens aumenta sobremaneira para as famílias.

E as redes sociais? Todos estão demasiadamente ocupados. Ninguém tem mais tempo de ficar, a sós, consigo mesmo. Isso é muito ruim, pois os jovens vão paulatinamente se distanciando de um exame crítico e mais rigoroso do mundo e das coisas em geral. Eles não têm tempo para ponderar com mais cuidado sobre os problemas do dia a dia.

Exemplificando: o Twitter, que é a rede social que permite aos usuários enviar e receber mensagens, em textos de até 140 caracteres, não contribui muito para o desenvolvimento de um pensamento mais robusto, que necessita de mais toques. Assemelhamo-nos aos pássaros, que ficam apenas gorjeando.

Repensemos o consumismo moderno. Aprendamos a usar toda essa parafernália eletrônica, a fim de que possamos navegar sem naufragar.

 

18 junho 2011

Sócrates e a Morte

“Condenável não é a sentença, mas a vontade perversa que a inspira.”

Por desrespeitar os deuses gregos e incitar os jovens à desobediência, Sócrates fora preso e condenado a beber cicuta. Os amigos poderiam libertá-lo. Não o quis. Por quê? Quis dar o exemplo de obediência ao seu daimon, o seu deus interior

Para Sócrates, o filósofo deseja morrer. A sua tesea morte é um bem. Sócrates supunha duas alternativas para a morte: o nada e a transmigração da alma. Sendo nada, uma espécie de sono profundo, ela é preferível à vida. Se a morte, porém, é a passagem da alma para o além-túmulo, é uma grande oportunidade para encontrar homens ilustres, e continuar aprendendo com eles

Afirma que a tranquilidade interior do homem honesto é superior à morte. Acha que cada acontecimento, inclusive a condenação à morte, tem uma razão de ser. Ele diz que mesmo o que aconteceu com ele não aconteceu por acaso, achando que morrer naquela circunstância era livrar-se de todas as suas fadigas. Como não recebeu nenhum sinal divino que o detivesse, a morte era o maior dos bens

“Mas é chegada a hora de partir: eu para a morte e vós para a vida. Quem de nós se encontra para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”. Somente Deus conhece a verdade

Fonte de consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

16 junho 2011

Questionamento e Filosofia

“Em filosofia, a pergunta importa mais do que a resposta”.

Questionar é uma regra capital. Lembremo-nos de que foi do questionamento dos mitos que surgiu a filosofia da antiguidade. Sócrates, por exemplo, fez da pergunta o seu método filosófico. Filosofar é realizar uma investigação racional e produzir uma argumentação rigorosa. Para isso, precisa de perguntas.

Pensando no questionamento, vemos que a contradição torna-se essencial para o próprio método da filosofia. Fazer filosofia não é buscar erudição, mostrar que se tem muitos conhecimentos, mas achar bons argumentos para a compreensão dos problemas que se nos forem apresentados. Em síntese: temos que saber refletir e bem colocar os problemas.

As argumentações filosóficas têm que arregimentar perguntas, que vão dissecando o tema, partindo do conhecido para o desconhecido. Descartes, no seu Discurso sobre o Método, orientava-nos sobre quatro preceitos fundamentais:

1) Não admitir nada que não seja evidente;

2) Proceder segundo a análise;

3) Conduzir por ordem os nossos pensamentos, indo do mais simples ao mais complexo;

4) Fazer uma enumeração completa dos dados do problema.

Dado um tema, um conceito, uma frase, uma questão, temos que saber trabalhar com outras questões, no sentido de dissecá-lo, extraindo daí o máximo de conhecimento possível.

 

18 maio 2011

Freio Moral

Tese: sem sólida moral, podemos nos chafurdar no vício, seja de que espécie for.

Em nosso dia a dia, deparamo-nos com diversas situações que nos convidam a burlar os nossos princípios morais. Pensamos: todos fazem, por que não posso fazer também? Só eu sei do ocorrido; ninguém poderá me cobrar por coisas tão insignificantes? Esses pensamentos cedem lugar a outros de mesmo teor. Em pouco tempo, nossa resistência espiritual fica abalada.

Exemplos: numa dúzia de laranjas, pegamos uma décima terceira; numa nota fiscal, pedimos um valor maior; firmamos um acordo e não o cumprimos. Num determinado lugar, há avisos para não fazer isso e aquilo e fazemos de conta que não o vimos. Cada um de nós pode estender esta lista ao seu bel-prazer

Quais são, porém, as consequências desse desleixo? Tisnamos o nosso caráter e a nossa personalidade. Tudo, antes de se tornar ação, passou pelo pensamento. Ceder espaço para o que não é corretamente moral debilita-nos, porque vamos nos acostumando com a facilidade do erro. Sem o percebermos, escravizamo-nos à uma forma inferior de vida.

Por isso, quando tomarmos consciência de que estamos relaxando o nosso comportamento, frente a esses inconvenientes, acionemos a campainha dos bons princípios. Eles trazem de volta a liberdade, pois deixaremos de pensar em coisas fúteis para nos ocuparmos das coisas autênticas, como diriam os filósofos.

Por pior que seja a situação, ajamos sempre segundo os princípios morais elevados. O esforço de hoje produz a liberdade de amanhã.

 

 

04 maio 2011

Concentração e Barulho Externo

Tese: o barulho externo tem aumentado significativamente.

É o vizinho com seu aparelho de som em volume alto, o vozeirão das pessoas ao nosso derredor, o ruído dos motores das máquinas...

As pessoas quando falam ao celular, em ônibus ou metrô, têm a impressão que estão em suas próprias casas: o volume de voz é tão alto que todos os passageiros tomam conhecimento de suas conversas.

Há lugares, como as bibliotecas públicas, em que é proibido falar ao telefone. Mesmo assim, elas arrumam um jeito de falar.

Pergunta-se: como evitar a irritação com o barulho externo?

A tarefa não é fácil, mas se exercitarmos a nossa concentração mental, quem sabe não amenizaríamos esse tipo de estresse? A concentração diz respeito ao seguinte: “mesmo com uma bomba ao lado, não deveríamos desviar o nosso pensamento do objetivo proposto”.

Se pudéssemos, a cada instante do nosso dia, focalizar o nosso próprio pensamento, as nossas criações mentais e o nosso trabalho intelectual, talvez diminuíssemos o nosso nervosismo com o que é externo.

Aprendamos com as crianças. Elas não ligam para o barulho externo, porque não lhes veem à mente que devem repreender os outros. Ainda mais: a irritação do barulho externo pode ser fruto simplesmente de nossa imaginação. Queremos que as coisas sejam do nosso modo. A realidade, porém, é outra. Assim sendo, concentremos em nossos objetivos de vida e deixemos que o barulho externo se esvaia por si mesmo.

 

 

 


23 março 2011

Concepção de Mundo: Os Gregos e o Cristianismo

Em linhas gerais, o conhecimento filosófico surgiu na Grécia como oposição ao conhecimento mitológico e religioso. Segundo aqueles pensadores, o conhecimento deveria ser construído através da razão, através da inquirição da natureza e não simplesmente pelo relato de uma história fantástica.

A filosofia e a religião são duas formas diferentes de explicar o mundo. A filosofia baseia-se na razão, a religião na fé. O cristianismo é uma religião e, como tal, baseia-se na fé. A filosofia tenta compreender o mundo dentro dos limites da razão. Nesse sentido, o âmbito da fé está no sobrenatural; o a filosofia, no natural. Santo Tomás de Aquino já nos dizia que mesmo de natureza distinta, fé e razão mantêm, desde tempos remotos, uma profunda ligação.

Para os gregos, o mundo é o cosmos, algo ordenado, em que as coisas se repetem, tal como o Sol que aparece todos os dias. Esta ordenação se opõe ao caos, que seria a desordem. Nessa concepção, o tempo é circular, ou seja, supõe-se um eterno retorno do que existe. Nega, assim, a criação do mundo pelo cristianismo, que pressupõe um Deus criador.

A concepção de mundo no cristianismo não é captada simplesmente pela razão. É fruto de uma revelação. Deus revelou o mundo, criou-o a partir do nada (ex-nihilo). É a partir daí que o tempo (linear) começou a ser contado, a existir, concepção esta que permanece nos dias atuais. Para o pensamento grego, porém, do nada, nada sai.

O mundo, segundo o cristianismo, foi criado para servir de morada ao ser humano, que deve fazer a sua caminhada evolutiva, desde a sua criação, à imagem e semelhança de Deus, até o final, que é o advento do reino de Deus. E tudo isso deve ser feito segundo os ensinamentos de seu Filho, Jesus.

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. (Filosofia)

 

 

18 março 2011

O Ócio e o Filosofar

“Para filosofar, a mente deve estar ociosa”.

Arthur Schopenhauer (1788-1860) anota duas exigências para se filosofar: 1) que se tenha coragem de não guardar no coração nenhuma pergunta sem resposta; 2) que se traga à clara consciência aquilo que se entende por si mesmo para considerá-lo como problema. Por fim, para se filosofar propriamente, a mente deve estar ociosa. Quer dizer, deve procurar desinteressadamente o conhecimento que o mundo intuitivo lhe oferece.

Depreende-se que o verdadeiro filósofo não é aquele que tem uma finalidade, um objetivo, uma vontade, mas aquele que renuncia a si mesmo e, deixando o particular, procura absorver-se no universal. É preciso ver o universal nas coisas particulares. Por isso, a filosofia, o anelo pela verdade nua e crua. Nesse sentido, os professores de filosofia podem dispor de inúmeros conceitos e muitas abstrações e, mesmo assim, não serem verdadeiramente filósofos.

Schopenhauer diz: “Somente se o conhecimento for dirigido ao universal é que pode permanecer isento de vontade; já o objeto do querer, pelo contrário, está nas coisas particulares”. Ainda: “Para o intelecto a serviço da vontade só há coisas particulares; o gênio, ao contrário, desconsidera e negligencia o individual”.

A verdadeira filosofia não pode ficar apenas nos conceitos abstratos, que muitas vezes deturpam o próprio conhecimento. Já não vemos mais árvores, animais e pedras, pois são meros produtos de nossa abstração. O mesmo podemos dizer das palavras verdade e beleza, que se tornaram mágicas a ponto de nos infundir o dualismo maniqueísta, entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio. Seria mais produtivo fundamentá-la na observação e experiência, interior e exterior.

ócio pode livrar-nos dos vereditos da razão, expressão usada para aquele que toma o conhecimento falso por verdadeiro, pois acreditou numa verdade sem exame. É sobre este fato que devemos direcionar o nosso pensamento. Nesse caso, “é melhor rejeitar dez verdades do que aceitar uma mentira” é uma frase lapidar que deveríamos pôr em prática em nossas lucubrações filosóficas.

Fonte de Consulta

Schopenhauer, A. Sobre a Filosofia e seu Método. Organização e tradução de Flamarion Caldeira Ramos. São Paulo: Hedra, 2010.

Os Místicos na Idade Média

misticismo medieval procura alcançar a união com Deus. É uma corrente de pensamento baseada na purificação ascética em que se abandonam todas as certezas proporcionadas pelo conhecimento conceitual. São Bernardo de Claraval, São Francisco de Assis, Hugo de São Victor, Meister Eckhart e Tomás de Kempis são alguns nomes desse movimento. O objetivo é fornecer subsídios para que o homem passe do profano ao sagrado.

profano, cuja etimologia é aquilo que está “fora do templo” contrasta com o sagrado, que se pressupõe pertencer ao templo. Desta forma, no profano, Deus é concebido conforme a pura razão; no sagrado, Deus é uma experiência religiosa fundamentada no temor. No profano, Deus é uma noção abstrata; no sagrado, um sentimento misterioso que revela ao ser humano toda a sua fragilidade.

São Bernardo de Claraval (1090-1153) e sua reação, denominada cisterciense, é um marco desse misticismo. Ele prega o retiro monástico, em que o monge deve viver de forma humilde, isolado do mundo, preocupando-se exclusivamente com a salvação de sua alma. Ao contrário do que ocorria na escolástica, em que Deus era motivo da disputatio, ele deveria procurar Deus somente dentro de seu coração. Deveria, também, fazer voto de pobreza e produzir para o seu próprio sustento. A arquitetura do mosteiro era simples, sem figuras, para não atrapalhar a contemplação de Deus.

A mística germânica tem seu representante: Johann Eckhart (1260-1327), mais conhecido como Meister Eckhart. Para Eckhart, Deus é um ser perfeito, o Uno, o elemento de conciliação de todos os opostos. O caminho de ascensão a Deus é um caminho via negativo, ou seja, a alma deve se desligar de imagens e de conceitos. “No nada que então advém irrompe a divindade, e o que era vazio, não-ser, inunda-se de uma luz e de um saber incomparáveis”.

Tomás de Kempis (1379-1471) é incluído no devotio moderna, o movimento ascético como consequência dos ensinamentos do mestre Eckhart, que floresceu nos Países Baixos. Embora distante das controvérsias medievais, a Imitação do Cristo, de Tomás Kempis, ressoando ainda a voz de Bernardo de Claraval, torna-se uma obra de maior difusão de todos os tempos.

O medo, a mística e o mistério estão sempre rondando o ser humano. Aproveitemos as lições desses grandes mestres do passado.

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. (Filosofia)

 

16 março 2011

Ativo ou Reativo?

Por que a opinião de outra pessoa é mais importante do que a nossa? Isso acontece porque o nosso comportamento é mais reativo do que ativo. De maneira geral, somos muito sensíveis ao que a outra pessoa pensa de nós. Esta maneira de agir está correta? A outra pessoa tem capacidade de penetrar em nossos sentimentos, em nosso modo de ver o mundo? Pensemos sobre este assunto.

Quando damos mais importância à opinião alheia é porque não estamos usando a nossa autonomia de pensar. Estamos mais preocupados em agradar, em fazer os outros felizes. É correto? E se o outro está nos espezinhando, nos fazendo passar vergonha, será que deveríamos nos portar como vítimas? Lembremo-nos de que o indivíduo inteligente é avaliado pelo modo como escolhe a sua reação em circunstâncias antagônicas, tais como, desavenças e conflitos.

Observe o seguinte: “Ele (marido) deve obedecer porque ela (esposa) ganha mais do que ele”. Será que essa atitude é de fundamental importância no relacionamento entre as pessoas? O dinheiro é que valoriza o relacionamento ou é o respeito mútuo que deve prevalecer? Quando damos muito valor ao dinheiro, acabamos transformando as pessoas em números, em cifras, em que tudo o mais gira em torno dele.

Somos tratados como os outros nos veem. Ao nos mostrarmos bondosos, prestativos e sempre dispostos a ajudar, o outro pode tomar essa postura como fraqueza e começar a ver-nos como escravos, como seus dependentes, e que podem fazer de nós o que bem entenderem. Quando isso ocorrer, é preciso dar um basta: “Arreganhe os olhos e faze cessar a brincadeira”.

George Bernard Shaw dizia: “As pessoas sempre culpam as circunstâncias por aquilo que são. Eu não acredito em circunstância. Quem se sai bem neste mundo são as pessoas que saem à procura das circunstâncias que desejam, e, se não as encontram, criam-nas”. Nesse caso, é a atividade e não a reatividade que deve comandar as nossas ações. Quantas vezes dizemos sim, quando gostaríamos de dizer não?

Somos donos de nosso pensamento. Através da lógica podemos combater o mito do não-controle das emoções. O pensamento, por sua vez, deve sempre melhorar, progredir, para libertar-nos da escravidão. Por isso, devemos combater qualquer tipo de paralisia, em virtude do remorso, da ira, do ciúme. Produzamos o máximo dos minutos que nos são oferecidos em cada dia, e estejamos inteiros naquilo que estivermos fazendo.

Ouçamos a opinião alheia, reparemos em nós o que acharmos de errado, mas não nos tornemos dependentes dela. Sejamos sempre ativos.



15 março 2011

Ler e Problematizar

Filosoficamente considerado, há dois tipos de conhecimento: 1) histórico (cognitio ex-datis); 2) racional (cognitio ex-principiis). O conhecimento histórico diz respeito à razão alheia. São os dados, aqueles gerados ao longo do tempo, principalmente pelos grandes pensadores da humanidade, tais como, Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes e outros. O conhecimento racional, por sua vez, fundamenta-se nos princípios da razão e não exclusivamente nos dados alheios.  

Há necessidade de consultarmos os grandes pensadores do passado? Por quê? É que os sistemas filosóficos representam a história do uso da razão. Consultando-os, podemos extrair deles uma grande quantidade de conhecimentos, pois não teríamos tempo suficiente para apreendê-los somente por nós mesmos. Descartes, por exemplo, achava que a leitura desses filósofos era uma conversa entre os melhores espíritos de épocas passadas. Nesse sentido, diz-se que os clássicos nunca ficam obsoletos, isto é, são sempre atuais.

Filosofar quer dizer problematizar e, mais especificamente, formular problemas. O problema filosófico não deve ser confundido com um outro problema qualquer, como o matemático, em que se procura construir teoremas. Na filosofia, ele se assemelha ao questionamento que Sócrates fazia em sua época, quando indagava o seu interlocutor através da ironia e da maiêutica. Assim, é preciso interrogar, duvidar, hesitar, examinar, ou seja, pensar.

A leitura dos clássicos, e sua problematização, leva-nos a pensar o que eles pensaram, mas com o intuito de tornar nossos os seus pensamentos, desde que haja consentimento da nossa razão. Não podemos ser como “os macacos e os papagaios”, que simplesmente repetem o que os outros disseram. Precisamos ultrapassar o que foi escrito pelos outros, pois o que importa é a nossa maneira de ser, o nosso modo de pensar. Em síntese: temos que adquirir certa autonomia no pensar.

Filosofar não é tarefa fácil, porque induz-nos a enfrentar os nossos preconceitos e as nossas idiossincrasias. Isso, porém, gera sofrimento. Como largar um hábito inveterado de uma hora para outra? Como destruir um preconceito que nos acompanha desde longa data? De qualquer forma, é sempre útil pensar sobre o pensamento, no sentido de tirarmos conclusões que nos levem a ampliar a interpretação da realidade.

Leiamos, interpretemos e problematizemos e nos aproximemos da verdade. A ilusão pode nos oferecer horas de prazer, mas no longo prazo o que importa é o desenvolvimento integral de nosso ser.

Mais informações em:

RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

 

03 março 2011

Falso Eu e Eu Verdadeiro

eu verdadeiro é aquele que permanece na profundidade do ser. O falso eu é o que aparece na superfície. Quando algo nos incomoda, esse algo atinge o falso eu. O falso eu não passa de atitudes e crenças adquiridas. Por que os outros nos tratam como o fazem? Porque nossa conduta revela esse tipo de tratamento.

As nossas expressões faciais, os nossos gestos e as nossas posturas revelam força ou fraqueza. Temos sempre que mostrar nossa força, porque os outros, de um modo geral, não gostam de pessoas fracas.

Imagine duas pessoas diante de uma tempestade: uma reclama o tempo todo; a outra, aceita-a serenamente. O que reclama (pessoa comum) assemelha-se ao falso eu; o que não reclama (espiritualizado) ao eu verdadeiro. O eu verdadeiro não deixa que a tempestade o atinja.

O homem comum é o falso eu, sempre se sente insultado, traído e maltratado. É este eu que sai ferido na tempestade de comentários sarcásticos e ações cruéis dos outros. Devemos fazer com que a tempestade caia sobre o eu verdadeiro. Ninguém pode ofender-nos se não o deixarmos.

02 março 2011

Diálogo Filosófico: Troca de Argumentos

 “Para os gregos, o debate é o lugar de um ‘falar longo’ e se opõe ao ‘falar breve’ do diálogo e da discussão filosófica”.

diálogo é uma conversa — em que os interlocutores trocam argumentos — com o objetivo de chegar a um acordo fundamentado. A Filosofia não se prende ao discurso convencional, às longas exposições, em que o orador quer demonstrar todo o seu conhecimento. Ela é basicamente um diálogo entre duas ou mais pessoas, movidas pelo desejo mútuo de descobrir a verdade.

Algumas notas:

1) Deve-se sempre começar o diálogo tentando definir os termos da discussão, para não incorrer em ambiguidades. A ambiguidade desvia-nos do tema apresentado.

2) Respeitar o direito de os outros participantes colocarem o seu ponto de vista. É deselegante monopolizar a palavra.

3) O diálogo ajuda o interlocutor sair de sua particularidade opinativa para alcançar o saber.

4) O diálogo caracteriza-se pela brevidade das réplicas. Difere, pois do debate, em que as pessoas falam mais demoradamente.

5) Deve-se limitar o número de participantes, pois o aumento de pessoas torna o diálogo inviável.

6) Evitar o simulacro do debate, em que cada pessoa fala na sua vez. O diálogo é uma conversa viva em que um concorda (ou discorda) do outro de maneira constante.

7) Fazer “ouvidos moucos” e “entender mal” torna o indivíduo inapto para o diálogo.

Para o filósofo, o diálogo é decisivo, pois ele combate o risco do pensamento solitário, que pode incorrer em erros por falta de uma crítica. Sempre que pudermos, exercitemos o debate em sala de aula. É possível aprendermos mais ouvindo do que somente falando o que julgamos saber.

Fonte de Consulta: RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

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ChatGPT (16/05/2023)

O diálogo filosófico é uma forma de troca de argumentos e ideias entre indivíduos com o objetivo de explorar questões filosóficas e chegar a uma compreensão mais profunda e fundamentada sobre um determinado tema. No diálogo filosófico, os participantes buscam construir um argumento sólido e coerente, apresentar pontos de vista divergentes e examinar criticamente as perspectivas uns dos outros.

O diálogo filosófico envolve uma série de etapas e técnicas que facilitam a troca de argumentos de maneira construtiva. Algumas dessas etapas podem incluir:

Apresentação da questão ou tema: Os participantes definem claramente a questão filosófica ou o tema em discussão. Isso estabelece o foco do diálogo e fornece uma base comum para a troca de argumentos.

Exposição de argumentos: Cada participante apresenta seus argumentos e pontos de vista sobre a questão em discussão. Os argumentos devem ser claros, lógicos e bem fundamentados em evidências ou princípios racionais.

Escuta ativa: Durante o diálogo, é essencial praticar a escuta ativa, prestando atenção aos argumentos dos outros participantes e compreendendo completamente suas posições. Isso permite uma discussão mais construtiva e evita mal-entendidos.

Respostas e questionamentos: Os participantes respondem aos argumentos uns dos outros, apresentando contra-argumentos, fazendo perguntas e solicitando clarificações. Essa interação ajuda a desenvolver os argumentos de forma mais precisa e aprofundada.

Debate crítico: O diálogo filosófico envolve um debate crítico e respeitoso, no qual os participantes desafiam uns aos outros de maneira construtiva, examinando a lógica, a validade e as implicações dos argumentos apresentados.

Reavaliação e revisão de posições: À medida que o diálogo avança, os participantes podem reavaliar suas posições iniciais com base nos argumentos e evidências apresentados. Esse processo permite uma abertura para a mudança de opinião e a adoção de perspectivas mais fundamentadas.

Busca de consenso ou compreensão mútua: O objetivo final do diálogo filosófico pode ser a busca de um consenso entre os participantes ou, pelo menos, uma compreensão mútua mais aprofundada. Mesmo que as posições não sejam totalmente reconciliadas, o diálogo filosófico visa promover uma apreciação mais completa e complexa da questão em discussão.

O diálogo filosófico é uma ferramenta valiosa para a busca da verdade e do conhecimento, permitindo que diferentes perspectivas sejam consideradas e examinadas criticamente. Através da troca de argumentos, os participantes podem expandir sua compreensão, refinar seus pensamentos e desenvolver uma abordagem mais informada para questões filosóficas e intelectuais.





 

 

01 março 2011

Hegel e o Idealismo Absoluto

Na filosofia kantiana, o mundo aparece dividido em sujeito e objeto, formas a priori e a posteriori, razão e experiência. A coisa em si, que é contestada pelos idealistas alemães pós-kantianos, indica que por baixo daqueles dualismos permanece o absoluto, o ser em si das coisas, como algo que o pensamento não pode conhecer. Só conhecemos, diz Kant, a maneira como as coisas aparecem para nós, isto é, os fenômenos.

Para Hegel e outros idealistas, a cisão entre sujeito e objeto está incorreta, pois há uma identidade entre sujeito e objeto; nada existe além do pensamento. O conhecimento não é simplesmente o conhecimento do fenômeno, mas o conhecimento total.

O absoluto — Deus (religião) e substância perfeita que não precisa de nenhuma outra para existir (Descartes) —, para Hegel é tratado como sujeito e, assim, passível de ser conhecido. A filosofia de Hegel funda-se nesta tese: “O absoluto é sujeito”.

Em suas críticas a Kant, Hegel destaca a necessidade de conhecer o absoluto. Ele diz: “A essência oculta do Universo não tem em si força alguma que possa oferecer resistência à ousadia do saber”. Por isso, “tem de se abrir diante dele, colocando-lhe diante de sua visão, para que as desfrute, suas riquezas e profundidade”.

A cisão entre sujeito e objeto, oferecido por Hegel, assemelha-se às Ideias Inatas de Platão. A diferença é que o mundo ideal de Platão era imutável e transcendente, enquanto o de Hegel é imanente e demonstra a sua existência porque sai de si mesmo (identidade indiferenciada) e se desdobra num movimento de ascensão, convertendo-se primeiramente em natureza (objeto), para depois passar ao sujeito (espírito).

O movimento de autorreflexão da Ideia é analisado por Hegel em seus dois livros: 1) na Fenomenologia do Espírito (1807), estuda a ascensão pelo lado do sujeito; na Ciência da Lógica 1812-1816), pelo lado do objeto. Na Fenomenologia do Espírito, coloca em discussão todos os tipos de conhecimento, desde os obtidos pela imediatidade (consciência sensível) até os da autoconsciência.

Em sua dialética, procura passar do conhecimento do “eu”, individual, para o conhecimento do “nós”, coletivo. Esse nós é o sujeito do saber Absoluto.

Fonte de Consulta: TEMÁTICA BARSA (Filosofia). Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.

 

23 fevereiro 2011

A Autoridade em Filosofia

movimento iluminista do século XVIII pretende libertar as pessoas da tradição e da autoridade, para submeter todo o conhecimento ao império da razão. Por isso, prega uma crítica ao conhecido. Criticar é fazer triagem: krinein, em grego, significa “selecionar, discernir”. Enquanto Aristóteles invocava a autoridade dos anciãos, por causa da idade avançada, Descartes apelava para a negação de todo o conhecimento adquirido para, do zero, construir o seu próprio saber.

luneta de Galileu, que lhe permitiu o questionamento da autoridade, é um exemplo do uso da razão e da demonstração. Como os homens resistem às descobertas que põe em dúvida aquilo que sempre acreditaram, e procuram a qualquer preço integrá-la em sua teoria antiga, Galileu teve de fazer esforços hercúleos para defender a sua teoria heliocêntrica, pois foi o primeiro a contestar as afirmações da Aristóteles sobre a Física.

Descartes e Galileu pensam que não se encontrará a explicação da natureza através de uma leitura assídua dos autores. Quanto mais assídua, mais fácil será passar ao largo da verdade. O acúmulo dos conhecimentos livrescos não substitui o exercício da razão. O verdadeiro filósofo não pode se tornar “doutor em memória”. Ele precisa exercitar a sua razão, como na frase celebre de Kant: “Sapere Aude! Tenha coragem de construir o seu próprio conhecimento.

Descartes chama a nossa atenção para os discursos que louvam o enigma, pois podem encobrir a verdade dos fatos. Esses conhecimentos podem ofuscar a luz natural. Por luz natural, Descartes entende a razão, a capacidade de distinguir o falso do verdadeiro. Daí que devemos submeter toda a autoridade ao exame e à autoridade da razão. Podemos nos valer do que os outros pesquisaram, mas tudo isso deve fazer parte de nosso estoque de conhecimento, que foi ruminado pela nossa razão.

Fazer dos outros filósofos um princípio de autoridade, leva-nos a abdicar de nossa razão, pois como seres pensantes, não podemos nos fiar cegamente em tudo o que os outros disseram.

Fonte de Consulta

RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)