22 dezembro 2013

Le Bon e a Psicologia das Multidões

"As multidões, pouco aptas ao raciocínio, mostram-se soberanas à ação." 

A multidão, em seu sentido comum, representa uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou seu sexo. Psicologicamente, a multidão possui características distintas do individuo (isolado). "A personalidade consciente desaparece e forma a alma coletiva. A coletividade torna-se uma multidão psicológica. Ela forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões".

A inconsciência e a irracionalidade estão na base de uma multidão. Geralmente, as pessoas em multidão são levadas pelo poder e contágio de um chefe, de um guru, de um líder religioso. Os tutelados ficam cegos diante da ordem do superior; apenas obedecem. Observe que individualmente não tomamos certas medidas, visto raciocinarmos e virmos que aquele ato não é correto. Em multidão, porém, falta-nos o senso crítico. Parece-nos que tudo é permitido, inclusive quebrar o bem público.  

Gustave Le Bon enfatiza o peso da raça na formação pensamento coletivo. Ele diz: "A organização de uma multidão forma-se sobre o fundo invariável e dominante da raça, sobrepõem-se algumas características novas e específicas que provocam a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da coletividade numa direção idêntica". Por essa razão, pessoas letradas acabam tendo o mesmo comportamento do de outros integrantes da multidão. 

Le Bon aponta, pelo menos três causas, para diferenciar o indivíduo (só) de ele em grupo.  

1ª) O indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado.

2ª) Contágio mental associado ao efeito hipnótico. Na multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso no sentido de sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo.

3ª) É a mais importante das causas, pois determina nos indivíduos na multidão características específicas às vezes muito opostas às do indivíduo isolado. 

Afirmação, repetição e contágio são palavras-chaves para direcionar uma multidão. A afirmação deve ser concisa, desprovida de provas e de demonstração. Pela repetição, a coisa afirmada chega a se estabelecer nos espíritos a ponto de se aceitar como uma verdade demonstrada. Depois de uma afirmação ser repetida há, ainda, a necessidade do contágio. "Nas multidões, as ideias, os sentimentos, as emoções, as crenças possuem um poder de contágio tão intenso quanto o dos micróbios". 

Fonte: Psicologia das Multidões, de Gustave Le Bon, obra de 1895. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)

Gustave Le Bon, médico e sociólogo, nasceu em Nogentle-Rotrou, França, em 1841. Estudou medicina na Universidade de Paris. Escreveu, entre outros livros, L'Homme et les Societés e Les Premières Civilisations. Faleceu em 1931. 

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